Envenenamento
Publicado no Jornal a 23/12/1994
A
supresa da notícia fez-nos voltar ao contacto com os leitores, embora fosse
tema sobre o qual já se pensara exprimir opinião, a actualidade brutal fez com
que fosse este o momento oportuno, até porque vivemos um período em que se
discute a influência da televisão sobre comportamentos violentos; poderá vir a
ser tema para futura reflexão.
Ontem
(29/XI/94) à noite, uma estação de televisão noticiou que duas jovens de Leiria
se suicidaram, envenenando-se com pesticida; a tragédia aparecia relacionada
com uma das numerosas telenovelas com que somos bombardeados; não é desse
veneno que vamos falar mas de outro.
Cada
uma das quatro estações exibe, diariamente, um número abusivo e injustificável
de “venenos mentais”. Quem estas escreve e subscreve, acompanhou já algumas
delas, ou pela sua reconhecida qualidade, ou pela temática abordada, ou pelo
simples entretenimento. Está, portanto, particularmente à vontade para, agora,
zurzir, sem dó nem piedade, nas estações televisivas que, em vez de oferecerem
alternativas mútuas, impõem, aos que se recusam a tal agressão, a única
alternativa: desligar o aparelho.
É
que se algmas dessas telenovelas são interessantes, pelas razões acima apontadas,
outras não o são e já se sabe que a quantidade é inimiga da qualidade; as vinte
e tantas telenovelas diárias que ocuparão alguns 70% ou 80% da programação
televisiva, com especial preponderância das latino-americanas hispanófonas, em
que a única temática se reduz ao melodrama lamechas de faca e alguidar, são
meio de cultura e catalisador da preocupante mediocridade que por aí grassa.
Não
cabendo aqui – nesta altura – analisar se isso é pura e simples estupidez ou se
obedece a intuitos maquiavélicos de subversão, o facto é que a constante
exposição a tamanha aculturação, é nociva. O homem é um animal de hábitos e
sujeita-se passivamente à informação recebida, em lugar de se incentivar o
juízo crítico, aposta-se na estupidificação massiva, ocupando a cabeça das
pessoas com intriguinhas, futilidades, mesquinhices, comportamentos amorais e
até imorais e uma geral falta de compostura assustadora. E o drama é que a
adesão é quase total; a massa está de tal maneira afectada pelo baixo nível da
média, que consome indiscriminadamente – e se mais houvesse, mais consumia,
envenenando-se alegremente.
É
trágico o atavismo em que os portugueses se têm mantido e, pelo andar da
carruagem, não se vê maneira de melhorar, muito pelo contrário!
O
signatário, que preza muito a sua tranquilidade de espírito, fica
particularmente irritado à hora das refeições – que são horas sagradas de não
ser incomodado – ao ser submetido à desesperante agressão que povoa a “nossa”
televisão. No seu contacto com o Direito, é confrontado, frequentemente, com o
fenómeno da droga, verdadeira chaga que – como um cancro – alastra no tecido
social e que, nessa qualidade é fortemente reprimido pela lei: a Sociedade deve
preservar-se dos elementos que lhe são nocivos actuando preventivamente – pela
intimidação – e terapêuticamente – pela repressão. A mesma filosofia preside à
obrigação de inserção de publicidade negativa nas embalagens de tabaco; há que
cuidar da saúde pública e aqui chegamos onde queríamos; é que a saúde pública
parece só merecer cuidado quando relativo à saúde física porque, no que
respeita à saúde psíquica e espiritual “é fartar vilanagem”! quanto mais
envenenamento melhor, com um patente desrespeito pelos seus semelhantes
tratados como imbecilizados e de forma imbecilizante. Quase imperceptível,
mas inexoravelmente, vai-se corroendo e minando os espíritos até neles criar
verdadeira dependência – à semelhança do que acontece com a droga.
É
tempo de reagir, pelo menos, por parte dos heróicos que ainda não estão
envenenados e sobre quem recai o dever de preservar os incautos das influências
perniciosas.


0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home