terça-feira, outubro 29, 2013

Envenenamento

Publicado no Jornal a 23/12/1994

A supresa da notícia fez-nos voltar ao contacto com os leitores, embora fosse tema sobre o qual já se pensara exprimir opinião, a actualidade brutal fez com que fosse este o momento oportuno, até porque vivemos um período em que se discute a influência da televisão sobre comportamentos violentos; poderá vir a ser tema para futura reflexão.

Ontem (29/XI/94) à noite, uma estação de televisão noticiou que duas jovens de Leiria se suicidaram, envenenando-se com pesticida; a tragédia aparecia relacionada com uma das numerosas telenovelas com que somos bombardeados; não é desse veneno que vamos falar mas de outro.

Cada uma das quatro estações exibe, diariamente, um número abusivo e injustificável de “venenos mentais”. Quem estas escreve e subscreve, acompanhou já algumas delas, ou pela sua reconhecida qualidade, ou pela temática abordada, ou pelo simples entretenimento. Está, portanto, particularmente à vontade para, agora, zurzir, sem dó nem piedade, nas estações televisivas que, em vez de oferecerem alternativas mútuas, impõem, aos que se recusam a tal agressão, a única alternativa: desligar o aparelho.

É que se algmas dessas telenovelas são interessantes, pelas razões acima apontadas, outras não o são e já se sabe que a quantidade é inimiga da qualidade; as vinte e tantas telenovelas diárias que ocuparão alguns 70% ou 80% da programação televisiva, com especial preponderância das latino-americanas hispanófonas, em que a única temática se reduz ao melodrama lamechas de faca e alguidar, são meio de cultura e catalisador da preocupante mediocridade que por aí grassa.

Não cabendo aqui – nesta altura – analisar se isso é pura e simples estupidez ou se obedece a intuitos maquiavélicos de subversão, o facto é que a constante exposição a tamanha aculturação, é nociva. O homem é um animal de hábitos e sujeita-se passivamente à informação recebida, em lugar de se incentivar o juízo crítico, aposta-se na estupidificação massiva, ocupando a cabeça das pessoas com intriguinhas, futilidades, mesquinhices, comportamentos amorais e até imorais e uma geral falta de compostura assustadora. E o drama é que a adesão é quase total; a massa está de tal maneira afectada pelo baixo nível da média, que consome indiscriminadamente – e se mais houvesse, mais consumia, envenenando-se alegremente.

É trágico o atavismo em que os portugueses se têm mantido e, pelo andar da carruagem, não se vê maneira de melhorar, muito pelo contrário!

O signatário, que preza muito a sua tranquilidade de espírito, fica particularmente irritado à hora das refeições – que são horas sagradas de não ser incomodado – ao ser submetido à desesperante agressão que povoa a “nossa” televisão. No seu contacto com o Direito, é confrontado, frequentemente, com o fenómeno da droga, verdadeira chaga que – como um cancro – alastra no tecido social e que, nessa qualidade é fortemente reprimido pela lei: a Sociedade deve preservar-se dos elementos que lhe são nocivos actuando preventivamente – pela intimidação – e terapêuticamente – pela repressão. A mesma filosofia preside à obrigação de inserção de publicidade negativa nas embalagens de tabaco; há que cuidar da saúde pública e aqui chegamos onde queríamos; é que a saúde pública parece só merecer cuidado quando relativo à saúde física porque, no que respeita à saúde psíquica e espiritual “é fartar vilanagem”! quanto mais envenenamento melhor, com um patente desrespeito pelos seus semelhantes tratados como imbecilizados e de forma imbecilizante. Quase imperceptível, mas inexoravelmente, vai-se corroendo e minando os espíritos até neles criar verdadeira dependência – à semelhança do que acontece com a droga.


É tempo de reagir, pelo menos, por parte dos heróicos que ainda não estão envenenados e sobre quem recai o dever de preservar os incautos das influências perniciosas.