Indisciplina
Publicado
no Jornal a 13/01/1995
Quem
estas assina percorre, duas vezes por semana, a auto-estrada Porto-Braga; por
outro lado, por dever de profissão, tem um contacto estreito com o Código da
Estrada. Esta última circunstância, permite-lhe assumir aqui uma função quase
pedagógica; é que – algo ingenuamente – acredita-se que a falta de informação
seja a causa de muita coisa feita erradamente; optimismo incurável, este! É lá
possível que alguém seja capaz de prejudicar outrem deliberadamente! O que há é
muita gente distraída e a esses se dirige a presente.
Aqui
há dias, logo a seguir à área de serviço de Santo Tirso, havia uma longa fila
do lado direito, a circular a uns 70 km/h e outra, não menos longa, fila do
lado esquerdo a circular aí pelos 75 a 80 km/h. A certa altura, foi possível
avistar a razão de tal congestionamento: do lado direito seguia, em “comboio”,
um funeral que, naturalmente, circulava em marcha lenta; a ultrapassá-lo, um
camião que, embora também devagar, sempre ia algo mais depressa. E todos os
infelizes que gostariam de aproveitar os 120 km/h que a lei magnânimamente
autoriza, torravam a paciência. Pensou este vosso amigo que as coisas iam
melhorar logo a seguir pois surge uma terceira via que permitiria uma
distribuição maior e melhor dos veículos; ledo engano! Com todo o respeito pelo
morto e solidariedade para com os seus familiares e amigos, não houve um único
veículo do referido “comboio” que ocupasse a sua mão de trânsito, seguindo pelo
meio a estorvar os outros.
Ao
percorrer essa auto-estrada – e qualquer outra, aliás – é frequente encontrar,
em certos sítios, três filas de trânsito em lugar das costumeiras duas, sendo
certo que as filas mais à esquerda têm o acesso condicionado por um limite
mínimo de velocidade, encontrando-se invariavelmente congestionadas, enquanto a
fila da direita está, também invariavelmente, vazia. Ora, no que respeita aos
distraídos – que são muitos, uma vez que os outros estarão a chamar-nos
tolinhos – há que esclarecê-los do seguinte: o Código da Estrada obriga os
veículos a circular pela direita, só sendo admissível abandonar essa via de
circulação para efectuar ultrapassagens, regressando, logo a seguir, à sua mão
de trânsito. Isto é o que manda a Lei e pune quem fizer o contrário disto, ou seja,
pune quem conduzir pela esquerda, estando livres as vias da direita.
Por
outro lado, quando surgiram as terceiras vias, chamou-se – erroneamente – à via
criada mais à direita que normalmente ocupa a berma de acostamento, “faixa para
lentos”. Nada mais errado: mantém-se, nessas circunstâncias, plenamente em
vigor, a obrigação de circular pela direita, havendo, isso sim, duas vias para
os mais rápidos em vez de uma; e tanto é assim que quem tem o acesso
condicionado são as duas vias mais à esquerda onde não é permitido circular
abaixo de determinada velocidade. O facto de se chamar às vias mais à direita
“faixas para lentos” só faria sentido se nessas faixas não fosse permitido
circular acima de certa velocidade; aí sim, seriam efectivamente destinadas apenas
aos mais lentos. A realidade é que se gerou e generalizou a convicção de que se
destinam apenas a quem vai muito devagar, mais precisamente, abaixo do limite
mínimo obrigatório para as outras vias mais à direita. Por exemplo: a
sinalização mostra, sobre as vias mais à esquerda, um sinal de obrigação de
circular a, pelo menos, 60 km/h; quem circular a 90 km/h não é “obrigado” a
deixar a faixa da direita, muito pelo contrário, é obrigado a nela permanecer
até que tenha necessidade de efectuar alguma ultrapassagem.
Esta
informação poderá ser útil para os distraídos que circulam impensadamente pela
via do meio. Quanto aos que praticam a infracção pela infracção, andando pelo
lado que lhes apetece, porque lhes apetece e quem quiser ultrapassar fica a
buzinar ou ultrapassa pela direita (o que é proibido) apenas podemos pedir aos
agentes da autoridade, rigor e firmeza na fiscalização e aplicação da Lei.
Caberá,
a propósito, dizer que a terceira via, ao ser criada à direita, facilita este
tipo de actuação porque obriga, quem quiser seguir pela sua mão, a desviar-se,
acto que é contrário à lei da inércia e do menor esforço – isto para além de
eliminar a berma, o que implicará que os veículos com avarias fiquem no meio da
faixa de rodagem.
Assusta,
a qualquer cidadão consciente, a falta de respeito generalizada pelo seu
semelhante; e a verdade é que mesmo noutras circunstâncias – quando a terceira
via é regra e não excepção – a via da direita está vazia, porque toda a gente
acha que vai suficientemente depressa para poder deixá-la para os outros, os
lentos.
Este
que vos maça, só não anda a mais de 120 km/h por medo das coimas – não porque
concorde com a marcha lenta a que continuam a obrigar-nos, apesar da cada vez
maior segurança dos veículos e das estradas – mas, obstinadamente e quase
obsessivamente, encosta-se sempre à direita e só daí sai para ultrapassar os
lentos que ocupam alegremente a via do meio, regressando imediatamente à
direita enquanto os lentos ficam a pensar que “aquilo é proibido”.
Fica,
em jeito de despedida, um apelo às escolas de condução para esclarecerem os
futuros condutores.


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