domingo, novembro 17, 2013

Liberdade de consciência

Publicado no Jornal a 24/03/1995

Foi muito badalado o afastamento de Monsenhor Gaillot, tendo sido oportunidade para renovados e violentos ataques à Igreja Católica.

Deve dizer-se, antes do mais, que não se conhece suficientemente a vida e a obra do Pastor e, como tal, não poderemos pronunciar-nos a respeito das ideias que defende e põe em prática; já o mesmo não se passa em relação ao tratamento dado à notícia o qual acompanhamos com interesse.

Entre o que se ouviu, destacam-se algumas ideias defendidas por Mons. Gaillot: a aceitação de “casais” homossexuais, a defesa do aborto e outras que tais; ouviu-se, ainda uma voz autorizada da Igreja portuguesa, D. Januário Torgal Ferreira, afirmar que Mons. Gaillot tinha escolhido exercer a sua Pastoral em áreas marginais.

Em nosso entender – de leigo católico – é de louvar essa acção: é nessas zonas que as carências de assistência espiritual são mais dramáticas; não queremos, com isto, dizer que se aceite a marginalidade: as Sagradas Escrituras e, principalmente, os Santos Evangelhos,  mostram-nos  o  caminho  a percorrer, rumo à perfeição inatingível, regendo a nossa vida pelo exemplo dado pelo Verbo Encarnado. Deus aponta-nos um código de conduta em Amor, porque Ele é Amor, criou-nos por Amor e para o Amor, resumindo-se essa conduta nos dois grandes Mandamentos: Amar a Deus e Amar o próximo – amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. O Pecado é o desvio do Amor mas esse Amor não tem medida: mesmo depois do Pecado continua na Sua plenitude,   apenas  com   a  condição de reconhecimento do desvio e propósito de retoma do Caminho – Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Não incumbe, portanto, à criatura julgar, pois essa missão está reservada para o Criador e, desde logo, se não julga também não condena. Nesse sentido não é função da Igreja condenar: antes deve acolher na Caridade o pecador – não o Pecado – apoiando-o a nas suas vicissitudes e ajudando-o reencontrar o Caminho.

Sendo o Corpo Místico de Cristo, a Igreja tem por missão anunciar a Boa Nova em defesa dos valores fundamentais de Amor e Vida. Desde sempre foi considerado que o casal é a união de duas pessoas de sexo diferente: a Igreja é a favor da Vida no seguimento do plano Divino de associar o Homem ao acto criador pelo que pode dizer-se que o Homem também cria quando transmite Vida. Ora, essa Vida provém da união de uma célula masculina com uma célula feminina e, portanto, não haverá verdadeiro casal sem a possibilidade de fecundidade – podem até haver razões fisiológicas que a impeçam mas ela só fica arredada definitivamente, pela natureza, quando não se unem pessoas de sexo diferente.

Não querendo entrar na polémica sobre as finalidades do matrimónio apenas se dirá que é Amor entre pessoas e sinal do amor de Deus, Amor que conduz à Vida e que, pela sua natureza, só é possível entre pessoas de sexo diferente.

Com tudo o que já ficou dito sobre a defesa da Vida, resulta clara a forma como deve ser encarado o aborto, que lhe é contrário.

Perante estas e outras realidades há uma importante acção Pastoral a desenvolver: acolher e reconduzir as pessoas e não aceitar ou defender os seus desvios.

Em consequência de tudo quanto ficou dito, a ser verdade o que consta sobre Mons. Gaillot, a sua actividade vai contra o plano Divino.

Entre muitas outras “barbaridades”, uma conhecida estação de rádio promoveu um de­bate em que foram ditas “maravilhas” como a que se segue: – A hierarquia do Vaticano, numa atitude persecutória e repressiva, não respeita a liberdade das consciências.

E preciso recordar que Deus criou o Homem à Sua Imagem e semelhança, portanto dotado de liberdade; inteligente e com vontade própria faz o que quer, segue o Caminho ou desvia-se. Com tão simples constatação, cai por terra a tal falta de liberdade de consciência; o que há são consciências bem ou mal formadas.

O tempo em que vivemos é um tempo de grande crise: essencialmente crise de valores. O “príncipe da mentira” é hábil e logra tentar cada vez mais incautos que, escravizados pelo Pecado, facilmente são manobrados. Um verdadeiro trabalho de sapa está em constante desenvolvimento com o objectivo de minar as consciências, o método mais eficaz é a apresentação dos valores negativos com um aspecto atractivo e a relativização.

Os próprios meios de comunicação mostram os desvalores associados a personagens simpáticos, vistosos, cativantes. Os valores, pelo seu lado, são associados a pessoas antipáticas. Não há Bem e Mal: tudo depende das circunstâncias, tudo é relativo – sabendo-se que a relativização é mais nociva do que a defesa aberta do Mal. Mostra-se a imoralidade e defende-se a amoralidade: sabe-se lá, depende, nada é definitivo, etc.

A consciência é, por sinónimo, o conhecimento: conhecimento da realidade dos factos, sem adulteração; só assim será verdadeiramente livre, sem os condicionamentos á liberdade que resultam de um excessivo “talvez”.

Poderíamos entrar aqui numa discussão filosófica sobre o Bem e Mal, mas não é esse o objectivo. A quem cabe o privilégio de ser filho de Deus, o seu alimento é fazer a vontade do Pai e aí reside o Bem. Depois há que estar muito atento para que não sejamos levados por aparências inofensivas mantendo, ao mesmo tempo, a firmeza granítica da nossa Fé.


Será pouco provável que estas palavras cheguem a Mons. Gaillot mas, aproveitando o início da Quaresma, aqui fica uma mensagem que aproveita a todos nós: memento homo quia pulvis est et in pulverem reverteris.