O equívoco
Publicado no Jornal a 07/07/1995
Já neste
Jornal outros e mais ilustres se pronunciaram sobre a recente Encíclica Evangelium
Vitae. Não tendo a capacidade reconhecida desses Autores, este Vosso criado
nada mais poderia fazer senão reduzir-se à sua insignificância; foi então que a
oportunidade surgiu. Sendo ouvinte assíduo de uma conhecida estação
radiofónica, de cariz informativo, ouviu-se o comentário da autoria do Dr. Pedro Arroja, economista de reconhecida
competência. Esse comentário, referia-se à já citada Encíclica, criticando
fortemente a Doutrina da Igreja, nomeadamente no que respeita à defesa da
Vida, mais concretamente ao planeamento familiar. Dizia o distinto economista
que a Igreja se obstinava em não reconhecer uma evidência: o aumento
descontrolado da população conduziria à escassez dos recursos alimentares c
brevemente chegaríamos à exaustão desses recursos.
Julgávamos
nós que o Malthusianismo estava morto e enterrado, quando o vemos renascer das
cinzas à semelhança da Fénix. Esquece o economista que os recursos alimentares
estão longe da exaustão; esquece que produções excedentárias são destruídas
para que os preços não desçam – o que, para um economista, é grave.
Mesmo sob
o ponto de vista estritamente humano, sem olhar a motivações religiosas, choca
aos sentimentos de solidariedade essa ânsia desenfreada do lucro, a divinização
do dinheiro, perante a qual são sacrificados todos os valores, incluindo o da
Vida Humana; uma vez por outra, os “ricos” lembram-se de brincar à caridadezinha
e dão umas esmolas para os “pobrezinhos”, rodeando sempre esses actos de grande
publicidade; pelo caminho “perde-se” (?) grossa fatia da “ajuda humanitária”.
Haverá quem não fique escandalizado com estas coisas?!
De vez em
quando, temos de ser confrontados com estas manifestações contra a Igreja;
agitando o fantasma da Inquisição, qual “papão” das histórias infantis,
abusa-se da liberdade religiosa e de imprensa para atacar – pois o ataque é a
melhor defesa. Quem ataca sabe que a Igreja defende valores com os quais não
são compatíveis a febre do dinheiro, a ganância do poder, o orgulho e a
satisfação descontrolada dos sentidos.
Todos
sabemos que a Igreja tem inimigos; não quer isto dizer que a Igreja faça
inimigos, mas os que não estão na disposição de observar os seus mandamentos –
que se consubstanciam na defesa da Bondade Suprema – colocam-se, a si próprios,
fora dela; para se justificarem, atacam o que é Bom.
Desde há
bastante tempo, muitos desses ataques têm sido dirigidos a Sua Santidade, normalmente
considerado retrogrado e “reaccionário”; também aqui haverá algumas coisas a
dizer. Se há Papa que seja providencial é João
Paulo II; cada um a seu modo, todos os sucessores da “Pedra” são
providenciais devido à missão que desempenham e à intervenção do Espírito Santo
na Sua escolha.
Por
vezes, ao ser humano, não é imediatamente acessível essa qualidade – até porque
os desígnios de Deus são insondáveis – mas noutras ocasiões apercebemo-nos de
tal, que, no caso de João Paulo II,
é evidente. A Igreja perante um mundo em constante transformação, teve de
adaptar-se e a obra extraordinária do Concílio Vaticano II ficou fortemente
marcada pela Beatitude quase ingénua de
João XXIII e pelo saber enciclopédico de Paulo
VI, os quais, cada um da sua forma peculiar, deixaram o sinal indelével da
Divina Providência; fazia falta quem os continuasse, quem corrigisse alguns
exageros naturais, quem procurasse o caminho da Igreja pós-conciliar, quem
conseguisse o difícil equilíbrio entre o acompanhamento da evolução das gentes
e a Verdade Eterna e imutável: com as suas inegáveis virtudes e a presença
vivificante do Espírito, João Paulo II
tem tido o cuidado de fazer regressar às raízes nos momentos críticos em que a
Igreja se vê confrontada com os apelos de uma demagogia fácil, com
politiqueirices que nada têm a ver com a Boa Nova do Evangelho.
A Igreja
está no Mundo mas, como Corpo Místico de Cristo, não é do Mundo. A sua Missão
consiste em anunciar a Palavra, dar conhecimento da mensagem de salvação; para
essa salvação há um caminho a percorrer, ou se segue, ou deixa-se de o seguir.
Não haverá aqui lugar ao reinventar de outros caminhos, sendo também dever da
Igreja dizer o que está Bem, o que deve fazer-se para melhor amar Deus e, pelo
contrário, o que está Mal.


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