quarta-feira, novembro 27, 2013

O equívoco

Publicado no Jornal a 07/07/1995

Já neste Jornal outros e mais ilustres se pronunciaram sobre a recente Encíclica Evangelium Vitae. Não tendo a capacidade reconhecida desses Autores, este Vosso criado nada mais poderia fazer senão reduzir-se à sua insignificância; foi então que a oportunidade surgiu. Sendo ouvinte assíduo de uma conhecida estação radiofónica, de cariz informativo, ouviu-se o comen­tário da autoria do Dr. Pedro Arroja, economista de reconhecida competência. Esse comentário, referia-se à já citada Encíclica, criticando fortemente a Doutrina da Igreja, nomeada­mente no que respeita à defesa da Vida, mais concretamente ao planeamento familiar. Dizia o distinto economista que a Igreja se obstinava em não reconhecer uma evidência: o aumento descontrolado da população conduziria à escassez dos recursos alimentares c brevemente chegaríamos à exaustão desses recursos.

Julgávamos nós que o Malthusianismo estava morto e enterrado, quando o vemos renascer das cinzas à semelhança da Fénix. Esquece o economista que os recursos alimentares estão longe da exaustão; esquece que produções excedentárias são destruídas para que os preços não desçam – o que, para um economista, é grave.

Mesmo sob o ponto de vista estritamente humano, sem olhar a motivações religiosas, choca aos sentimentos de solidariedade essa ânsia desenfreada do lucro, a divinização do dinheiro, perante a qual são sacrificados todos os valores, incluindo o da Vida Humana; uma vez por outra, os “ricos” lembram-se de brincar à caridadezinha e dão umas esmolas para os “pobrezinhos”, rodeando sempre esses actos de grande publicidade; pelo caminho “perde-se” (?) grossa fatia da “ajuda humanitária”. Haverá quem não fique escandalizado com estas coisas?!

De vez em quando, temos de ser confrontados com estas manifestações contra a Igreja; agitando o fantasma da Inquisição, qual “papão” das histórias infantis, abusa-se da liberdade religiosa e de imprensa para atacar – pois o ataque é a melhor defesa. Quem ataca sabe que a Igreja defende valores com os quais não são compatíveis a febre do dinheiro, a ganância do poder, o orgulho e a satisfação descontrolada dos sentidos.

Todos sabemos que a Igreja tem inimigos; não quer isto dizer que a Igreja faça inimigos, mas os que não estão na disposição de observar os seus mandamentos – que se consubstanciam na defesa da Bondade Suprema – colocam-se, a si próprios, fora dela; para se justificarem, atacam o que é Bom.

Desde há bastante tempo, muitos desses ataques têm sido dirigidos a Sua Santidade, normalmente considerado retrogrado e “reaccionário”; também aqui haverá algumas coisas a dizer. Se há Papa que seja providencial é João Paulo II; cada um a seu modo, todos os sucessores da “Pedra” são providenciais devido à missão que desempenham e à intervenção do Espírito Santo na Sua escolha.

Por vezes, ao ser humano, não é imediatamente acessível essa qualidade – até porque os desígnios de Deus são insondáveis – mas noutras ocasiões apercebemo-nos de tal, que, no caso de João Paulo II, é evidente. A Igreja perante um mundo em constante transformação, teve de adaptar-se e a obra extraordinária do Concílio Vaticano II ficou fortemente marcada pela Beatitude quase ingénua de João XXIII e pelo saber enciclopédico de Paulo VI, os quais, cada um da sua forma peculiar, deixaram o sinal indelével da Divina Providência; fazia falta quem os continuasse, quem corrigisse alguns exageros naturais, quem procurasse o caminho da Igreja pós-conciliar, quem conseguisse o difícil equilíbrio entre o acompanhamento da evolução das gentes e a Verdade Eterna e imutável: com as suas inegáveis virtudes e a presença vivificante do Espírito, João Paulo II tem tido o cuidado de fazer regressar às raízes nos momentos críticos em que a Igreja se vê confrontada com os apelos de uma demagogia fácil, com politiqueirices que nada têm a ver com a Boa Nova do Evangelho.

A Igreja está no Mundo mas, como Corpo Místico de Cristo, não é do Mundo. A sua Missão consiste em anunciar a Palavra, dar conhecimento da mensagem de salvação; para essa salvação há um caminho a percorrer, ou se segue, ou deixa-se de o seguir. Não haverá aqui lugar ao reinventar de outros caminhos, sendo também dever da Igreja dizer o que está Bem, o que deve fazer-se para melhor amar Deus e, pelo contrário, o que está Mal.