Dever de consciência
Há alturas em que a consciência não
me permite o silêncio. Ultimamente até dou comigo surpreendido por estar tão
sossegado. Sempre fui activamente interveniente, considero tal intervenção como
um dever perante a sociedade de que faço parte. Não quero ferir
susceptibilidades, tenho amigos de todas as opções, não deixo de os considerar
pelo facto de pensarem de modo diferente. Fui educado no respeito pelos outros
e não tenciono proceder de outro modo.
Já aqui me pronunciei acerca do
resultado das eleições de 4 de Outubro de 2015; todo o país estava expectante
acerca de qual seria a solução governativa para a falta de uma maioria
parlamentar. Cavaco Silva
pôs fim à expectativa ao indigitar
Passos Coelho para formar governo.
Já gostei mais de Cavaco Silva, a ponto de nele ter
votado, por aquilo que eu considerei razões de interesse nacional. Desde o seu
primeiro mandato, sou fortemente crítico da sua actuação. Por outro lado, ao
longo do tempo, fui ganhando independência, também sou fortemente crítico mesmo
quanto aos partidos de que me sinto mais próximo: uma asneira será sempre uma
asneira, independentemente de quem a pratica. Em toda a classe política, de uma
ponta a outra, ninguém me merece confiança, o que leva a que a minha opção
tenha sido sempre pelo mal menor. Sinto-me, assim, particularmente à vontade
para dizer bem ou mal, creio que o meu raciocínio não está inquinado por
qualquer partidarismo, aliás sempre fui fortemente avesso à partidocracia.
Durante todo o processo que antecedeu
a nomeação, os partidos alheios à coligação manifestaram uma única coisa: mau
perder. Soares, Cavaco Silva, Guterres,
Sócrates, todos governaram sem maioria. Pelos vistos, só Passos Coelho não pode governar sem
maioria… bom mas agora há um consenso entre todos os partidos que representam a
maioria dos deputados. Meus caros amigos, que raio de consenso é este? Parece a
quadratura do círculo… o PS já se esqueceu do tempo em que teve de lutar contra
os comunistas e agora já é tudo boa gente. Só podem estar a brincar!
Cavaco Silva fez o que
era expectável, fez o que tem sido feito em todas as ocasiões em que o partido vencedor (ou coligação) não
consegue a maioria dos deputados. Fez, depois, algumas considerações acerca dos
partidos de esquerda; apesar de serem considerações acertadas, a verdade é que
– sendo um chefe de estado que se pretende seja equidistante – não deveria ter
proferido tais considerações.
A um comentador, a alguém que –
como eu – exprime a sua opinião, não fica mal. Portugal tem o seu lugar na
Europa; não obstante o estado em que essa Europa se encontra, a verdade é que
fazemos parte da União Europeia e da zona euro e fora desse espaço não
sobreviveremos. Apesar dos diferentes pontos de vista do PS, do PSD e do CDS,
há valores que são consensuais a todos; quanto ao Partido Comunista e ao Bloco
de Esquerda, é do conhecimento geral a aversão que tais organizações têm à
inclusão de Portugal na União Europeia.
Aquilo que agora ocupa o nosso
pensamento é o day after. Cavaco Silva
já disse que não daria posse a um governo do PS com apoio dos
outros 2 partidos à sua esquerda. Costa já
disse que apresentará uma moção de censura.
Não me surpreenderia se houvesse
uma cisão no PS; não é necessário que os partidos fora da coligação aprovem o
Governo daquela, basta que haja abstenções suficientes para que a moção de
censura não seja aprovada.
Este será, talvez, o cenário menos
mau do ponto de vista da necessária estabilidade. Mas imaginemos que a moção de
censura é aprovada; irá Cavaco Silva inverter as suas intenções (como, aliás, já fez)? Ou optará
por manter o Governo em gestão, atirando a batata quente para o seu sucessor?
Qualquer solução será má para o país: o governo de gestão estará muito limitado
na sua actuação. O governo da maioria de esquerda, no escasso tempo em que o
entendimento se mantiver, destruirá o pouco de bom que foi feito e cairá pela
força da natureza; até podia ser bom, pelo ponto de vista segundo o qual
voltaríamos a ter eleições, daqui por coisa de um ano, em que das urnas sairia
uma solução bem diferente da actual; contudo, o tempo entretanto perdido, seria
– como acima escrevi – caótico para uma economia nacional já de si muito
depauperada.


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