Democracia à portuguesa
Publicado
no Jornal a 10/07/1998
No
dia 28 de Abril completaram-se 109 anos do nascimento de António Oliveira Salazar; todos sabemos
quem foi. Marcou a história da primeira metade do séc. XX português, bem ou
mal, segundo as opiniões.
Nisto
de opiniões, vem sempre à memória aquela singela mas educativa história dos
livros da defunta instrução primária, o velho, o rapaz e o burro. Para uns Oliveira Salazar foi um demónio, para
outros foi um anjo.
As
pessoas não são anjos nem demónios, são seres com defeitos e virtudes e Oliveira Salazar não era excepção.
Convém não esquecer que as finanças renasceram do caos e entrou-se num período
de estabilidade política, embora para isso tenha sido necessária mão de ferro,
por vezes bem dura, sobretudo para com os adversários; quem vivia a sua vida,
sem se meter nas questões políticas, nada tinha a temer. Faltou a tal liberdade
de que tanto se fala. Segundo dizem, essa liberdade – associada à democracia –
é a principal conquista após 25 de Abril de 1974.
Reclamou-se
a liberdade de expressão, mas esqueceu-se o respeito pelas opiniões alheias.
No
dia acima mencionado, algumas pessoas quiseram sufragar a alma de Oliveira Salazar tendo promovido a
realização de duas missas, uma em Lisboa e outra em Coimbra. Não foram missas
de homenagem como erradamente disseram alguns jornalistas, nem tão pouco missas
“em memória de Oliveira Salazar;
foram, repete-se, missas de sufrágio.
Por
esse simples motivo, não se tratou de acto político, de enaltecer o falecido ou
a sua acção, ou de fazer ressaltar as virtudes do Estado Novo para abafar os
seus defeitos. Tratou-se, com efeito, de acto religioso: para os católicos, a
alma continua viva após a morte do corpo e deve rezar-se pelo eterno descanso
das almas; de todas as almas, mesmo as daqueles que se consideraram como
inimigos enquanto vivos; é este o ensinamento que podemos tirar dos Santos
Evangelhos. Foi esse o conteúdo que teve a celebração das referidas missas.
Todavia, Oliveira Salazar foi uma
figura polémica e logo houve quem se apressasse a encontrar nas celebrações
conteúdos revivalistas que não estavam lá. Há que boicotar. E se bem o pensaram
melhor o fizeram; foi o espectáculo “dignificante” que se pôde ver: insultos,
arruaça baixa, grosseira, obscena e reles, agressões, desrespeito total pelo
seu semelhante. Temos então uma liberdade que não é ecléctica, a que não se
pode seriamente dar o nome de liberdade. Aquilo que a televisão nos mostrou foi
libertinagem, uns fedelhos a quem os paizinhos não souberam dar, na hora
própria, um par de tabefes para os ensinar a respeitar para merecer ser
respeitado. A verdadeira liberdade é aquela que termina onde começa a liberdade
do outro; nessas condições, a liberdade é o bem mais precioso, logo a seguir à
vida. E todo o ser humano que se preza não quer perder a sua liberdade e
defende-a a todo o custo: liberdade para pensar, para expressar o seu
pensamento, sem agredir o próximo. Ou será que a democracia se contradiz por
não aceitar esta ou aquela tomada de posição ideológica? Ou será que os
católicos não podem ir à missa? Ou será que devemos esperar que alguém nos diga
o que pensar e o que fazer? Ou será que aqueles prodigiosos insolentes, tão
aprumados e correctíssimos no seu proceder, não sabem o que é a democracia e a
liberdade?
É
verdade que no tempo de Oliveira Salazar
não se podia exprimir o pensamento se ele fosse contrário ao regime; mas tanto
quanto nos tem sido dito, agora já se pode exprimir o pensamento, qualquer
pensamento, mesmo que seja contrário à liberdade de expressão; ou então temos a
contradição fundamental e simile essere
et non essere non potest essere.
Não
parece que se esteja a empreender uma acção de “branqueamento” do Estado Novo.
Ainda agora se vêem denúncias dos erros cometidos e se procura a
responsabilização dos que os praticaram. O que o Estado faz é respeitar –
fazendo justiça à sua inspiração de pluralismo – todas as opiniões, mesmo as
que lhe são contrárias. Isso é liberdade, isso é democracia.


0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home