Democracia e Eclectismo
Publicado no
Jornal a 11/08/2000
A presidência portuguesa da União Europeia
foi dominada pela situação da Áustria. Ainda recentemente, no encontro
ocorrido em Santa Maria da Feira, voltou à baila.
Para quem não souber, informa-se que houve
eleições legislativas naquele país, que foram vencidas por um partido conservador
que, contudo, não obteve a necessária maioria. Para efeito de obtenção da
maioria parlamentar foi feito um acordo entre aquele partido e um outro, o
Partido da Liberdade liderado por Iörg Haider. Certa gente, que gosta muito de
pôr rótulos, diz que esse partido é de “extrema-direita”; tal deve-se a certas
afirmações feitas por Haider, a
quem acusam de simpatizante da ideologia nacional-socialista. Esquecem que
certas ideias defendidas por aquele dirigente já foram defendidas – mais ou
menos com os mesmos contornos – por Margareth
Thatcher, Jacques Chirac, ou Ronald
Reagan, como seja o agravamento das molduras penais, a imposição de
restrições à imigração e outras.
Seja como for, um dos princípios fundamentais
da democracia é a liberdade de expressão, ou pelo menos dizem que é; ora, ao
ouvir-se as alarvidades que têm por aí sido ditas, há sérias dúvidas de que
assim seja: isto é, pode defender-se qualquer ideologia, desde que seja uma
ideologia com determinados contornos. Se isto é liberdade de expressão, eu vou
ali e venho já!
A verdade é que a dita democracia – esta dos
politiqueiros – faz lembrar Henry Ford, e
o célebre “Modelo T”, que podia ser adquirido em qualquer cor desde que fosse
preto.
Estamos efectivamente muito longe de uma democracia
ecléctica, ou seja, dominada pelo respeito das opiniões alheias, sejam elas quais forem.
As reacções ao acordo celebrado por aqueles
dois partidos, que levaram à entrega de cargos governamentais a
representantes do Partido da Liberdade, tem sido dominado pela histeria, pelo
disparate, pela intolerável ingerência em país alheio. Sobressai a atitude da
União Europeia capitaneada pelo nosso Primeiro, segundo o qual, a vontade
manifestada pelo eleitorado austríaco deve ser contrariada. E isto é dito –
pasme-se! – em defesa da democracia, dos princípios que enformam a tal União
Europeia, princípios onde se salientam os valores democráticos, a liberdade de
expressão, o respeito pelo outro. Não há dúvida que estes politiqueiros
conseguiram a quadratura do círculo!
Por outro lado, há outras ideologias que não
respeitam os tais valores, mas sobre essas nada se diz, ou pior, os seus
representantes são acolhidos com entusiasmo provinciano e tecem-se-lhe largos
elogios. Nesses casos, o desrespeito da tão badalada democracia não tem
importância. Dizendo de outra maneira, há bons e maus desrespeitos dos
propagandeados valores, se for um desrespeito de direita é mau, se for de
esquerda é bom.
E a verdade é que, para além das tais
afirmações, mais ou menos polémicas, Haider
nada tem que se lhe aponte: ainda não teve qualquer comportamento
violador de direitos alheios e mesmo as suas opiniões têm caminhado no sentido
de uma maior moderação, o que levaria qualquer pessoa sensata a dar-lhe pelo
menos o benefício da dúvida, a deixá-lo agir para ver se faz asneiras ou não.
Como é natural, a Áustria está a ficar um bocado farta de tanta ideia preconcebida
e já começou a dizer que assim não pode ser: veja-se o que aconteceu quando
foi necessário o consenso de todos os países membros.
O que seria preciso analisar com
profundidade seriam as situações críticas de profunda crise social, do
“regabofe” a que se chegou, do “vale tudo”; ninguém se lembra do descontentamento
que este estado de coisas gera nas pessoas e que faz com que elas procurem quem
defenda os valores nos quais assenta tradicionalmente a sociedade. Isto é que
era preciso estudar a fundo mas, como não interessa aos responsáveis pela
“rebaldaria”, envereda-se pela caça às bruxas, pelo exorcismo primário e
ignorante, pela estupidez generalizada que se vê nos nossos governantes e se
procura cultivar nos povos, à custa da intoxicação televisiva, do
envenenamento mental, porque a cultura é uma coisa “chata” que não tem piada.
Em jeito de desabafo, até os mais moderados
estão fartos disto e já suspiram por autoridade – que não deve confundir-se com autoritarismo.


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