sexta-feira, maio 08, 2015

Democracia e Eclectismo

Publicado no Jornal a 11/08/2000

A presidência portugue­sa da União Europeia foi dominada pela situação da Áustria. Ainda recentemen­te, no encontro ocorrido em Santa Maria da Feira, voltou à baila.

Para quem não souber, informa-se que houve elei­ções legislativas naquele país, que foram vencidas por um partido conserva­dor que, contudo, não ob­teve a necessária maioria. Para efeito de obtenção da maioria parlamentar foi fei­to um acordo entre aquele partido e um outro, o Parti­do da Liberdade liderado por Iörg Haider. Certa gen­te, que gosta muito de pôr rótulos, diz que esse parti­do é de “extrema-direita”; tal deve-se a certas afirma­ções feitas por Haider, a quem acusam de simpati­zante da ideologia nacional-socialista. Esquecem que certas ideias defendi­das por aquele dirigente já foram defendidas – mais ou menos com os mesmos con­tornos – por Margareth Thatcher, Jacques Chirac, ou Ronald Reagan, como seja o agravamento das molduras penais, a imposi­ção de restrições à imigra­ção e outras.

Seja como for, um dos princípios fundamentais da democracia é a liberdade de expressão, ou pelo me­nos dizem que é; ora, ao ouvir-se as alarvidades que têm por aí sido ditas, há sérias dúvidas de que assim seja: isto é, pode defender-se qualquer ideologia, des­de que seja uma ideologia com determinados contor­nos. Se isto é liberdade de expressão, eu vou ali e ve­nho já!

A verdade é que a dita democracia – esta dos poli­tiqueiros – faz lembrar Henry Ford, e o célebre “Modelo T”, que podia ser adquirido em qualquer cor desde que fosse preto.

Estamos efectivamente muito longe de uma demo­cracia ecléctica, ou seja, do­minada pelo respeito das opiniões alheias, sejam elas quais forem.

As reacções ao acordo celebrado por aqueles dois partidos, que levaram à en­trega de cargos governa­mentais a representantes do Partido da Liberdade, tem sido dominado pela histe­ria, pelo disparate, pela in­tolerável ingerência em país alheio. Sobressai a atitude da União Europeia capita­neada pelo nosso Primeiro, segundo o qual, a vontade manifestada pelo eleitora­do austríaco deve ser contrariada. E isto é dito – pasme-se! – em defesa da de­mocracia, dos princípios que enformam a tal União Europeia, princípios onde se salientam os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito pelo outro. Não há dúvida que estes politiqueiros consegui­ram a quadratura do círcu­lo!

Por outro lado, há ou­tras ideologias que não res­peitam os tais valores, mas sobre essas nada se diz, ou pior, os seus representan­tes são acolhidos com entu­siasmo provinciano e tecem-se-lhe largos elogios. Nes­ses casos, o desrespeito da tão badalada democracia não tem importância. Di­zendo de outra maneira, há bons e maus desrespeitos dos propagandeados valores, se for um desrespeito de direita é mau, se for de esquerda é bom.

E a verdade é que, para além das tais afirmações, mais ou menos polémicas, Haider nada tem que se lhe aponte: ainda não teve qualquer comportamento violador de direitos alheios e mesmo as suas opiniões têm caminhado no sentido de uma maior moderação, o que levaria qualquer pes­soa sensata a dar-lhe pelo menos o benefício da dúvi­da, a deixá-lo agir para ver se faz asneiras ou não. Como é natural, a Áus­tria está a ficar um bocado farta de tanta ideia pre­concebida e já começou a dizer que assim não pode ser: veja-se o que aconte­ceu quando foi necessário o consenso de todos os países membros.

O que seria preciso ana­lisar com profundidade se­riam as situações críticas de profunda crise social, do “regabofe” a que se che­gou, do “vale tudo”; nin­guém se lembra do descon­tentamento que este estado de coisas gera nas pessoas e que faz com que elas procurem quem defenda os va­lores nos quais assenta tra­dicionalmente a sociedade. Isto é que era preciso estu­dar a fundo mas, como não interessa aos responsáveis pela “rebaldaria”, envere­da-se pela caça às bruxas, pelo exorcismo primário e ignorante, pela estupidez generalizada que se vê nos nossos governantes e se pro­cura cultivar nos povos, à custa da intoxicação televisiva, do envenenamento mental, porque a cultura é uma coisa “chata” que não tem piada.


Em jeito de desabafo, até os mais moderados estão fartos disto e já suspiram por autoridade que não deve confundir-se com autoritarismo.