Dvra Praxis Sed Praxis
Publicado
no Jornal a 25/02/2000
Oito anos da já longínqua década de
oitenta – mais uns meses e poderia dizer-se “no milénio passado”… – foram
gastos pelo Autor que esta faz a concluir um curso de cinco anos. Para além de
uma patológica preguicite, outras solicitações falavam mais alto; só quem não
passou pelos bancos da Universidade pode sentir dificuldade em compreender tais
solicitações. Uma delas foi exactamente a praxe académica; para que melhor se
possam compreender algumas coisas, será conveniente fazer uma breve resenha
histórica.
Ali pelos princípios dos anos 70,
chegou a Portugal o vírus do Maio de 68; em consequência de algumas crises
politiqueiras decidiu a Academia Coimbrã suspender todas as manifestações da
praxe – ou seja, para os leigos, deixou de se usar capa e batina, deixou de se
fazer a Queima das Fitas. Naturalmente, isto não agradou aos que por lá
passaram e aí viveram a sua juventude, sendo do conhecimento geral quão grande
é a saudade daqueles tempos. Após 1974, já não teria muita razão de ser o
carácter de protesto político daquela suspensão e começou a pensar-se em
restaurar a praxe, julgando que tal não mereceria grande contestação: ledo
engano!
Foi no Porto, em 1998, que se
tentou um tímido ensaio de Queima das Fitas, era eu “bicho” (aluno finalista de
liceu); foi um acto corajoso porquanto certas forças políticas, identificadas
com tudo o que vai para a esquerda do Partido Socialista, disseram cobras e
lagartos: chamaram-nos retrógrados, reaccionários e outras coisas muito menos
elegantes que nos ofendiam e às nossas progenitoras. Com o que eles não
contavam era com a reacção popular: o acolhimento entusiástico foi o impulso
que faltava para que o regresso fosse irreversível.
Aluno de uma novel Universidade
particular, foi minha tarefa difundir entre os colegas a praxe que já conhecia
e promover a adesão organizada daqueles, tarefa levada a cabo com notável
prejuízo da finalidade primordial de um estudante – que é estudar…
Acontece que aqueles simpáticos personagens
são mestres na arte da subversão: se não podes vencê-los junta-te a eles para
ir minando; paulatinamente, vão-se introduzindo “novidades”, pequenos exageros
que – segundo a teoria do plano inclinado – conduzem a outros maiores. Acontece
que os exageros merecem censura e a aprovação generalizada rápida e facilmente
se transforma em reprovação. Para os inimigos da praxe, é novamente tempo de
voltar à carga com o NÃO rotundo à praxe, a que se vem assistindo em alguns
estabelecimentos de ensino.
Para quem se dedicou a divulgar e
difundir a verdadeira praxe – aquela que não segrega mas congrega, que não
ofende mas diverte, que não aliena mas disciplina – é triste ver a que estado
chegaram as coisas, o abastardamento generalizado de “praxes” feitas à medida
de cada um, a obscenidade grotesca em vez da tradicional irreverência, a
embriaguez até à inconsciência como princípio, meio e fim.
A quem aproveitará tal estado de
coisas? Sem dúvida aos adeptos do “cinzentismo”, aos que apostam na
massificação mediocrizante, no nivelamento por baixo, na anti-cultura, como
meio de chegar a outros mais inconfessáveis fins: a amoralidade é mais perigosa
do que a imoralidade porque torna tudo relativo e é mais fácil conquistar quem
não defende convicções sólidas. O trabalho de sapa é mais apto a produzir
resultados do que a contestação aberta e o que se pretende é criar autómatos,
sem vontade própria, que alegremente se deixem levar como carneiros para um
matadouro, servilmente obedecendo a seus amos, os dirigentes supremos, líderes
carismáticos, que deles se servem como material descartável, sem qualquer
respeito pela pessoa humana, cada um com as suas características próprias,
naquela diversidade que desperta o interesse em vez de provocar a náusea e
fazer aumentar a taxa de suicídio, tão encoberta pelos “camaradas”.
Dizerem mal da praxe não a
desabona: desabona-os a eles.


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