sexta-feira, maio 08, 2015

Dvra Praxis Sed Praxis

Publicado no Jornal a 25/02/2000

Oito anos da já longínqua década de oitenta – mais uns meses e poderia dizer-se “no milénio passado”… – foram gastos pelo Autor que esta faz a concluir um curso de cinco anos. Para além de uma patológica preguicite, outras solicitações falavam mais alto; só quem não passou pelos bancos da Universidade pode sentir dificuldade em compreender tais solicitações. Uma delas foi exactamente a praxe académica; para que melhor se possam compreender algumas coisas, será conveniente fazer uma breve resenha histórica.

Ali pelos princípios dos anos 70, chegou a Portugal o vírus do Maio de 68; em consequência de algumas crises politiqueiras decidiu a Academia Coimbrã suspender todas as manifestações da praxe – ou seja, para os leigos, deixou de se usar capa e batina, deixou de se fazer a Queima das Fitas. Naturalmente, isto não agradou aos que por lá passaram e aí viveram a sua juventude, sendo do conhecimento geral quão grande é a saudade daqueles tempos. Após 1974, já não teria muita razão de ser o carácter de protesto político daquela suspensão e começou a pensar-se em restaurar a praxe, julgando que tal não mereceria grande contestação: ledo engano!

Foi no Porto, em 1998, que se tentou um tímido ensaio de Queima das Fitas, era eu “bicho” (aluno finalista de liceu); foi um acto corajoso porquanto certas forças políticas, identificadas com tudo o que vai para a esquerda do Partido Socialista, disseram cobras e lagartos: chamaram-nos retrógrados, reaccionários e outras coisas muito menos elegantes que nos ofendiam e às nossas progenitoras. Com o que eles não contavam era com a reacção popular: o acolhimento entusiástico foi o impulso que faltava para que o regresso fosse irreversível.

Aluno de uma novel Universidade particular, foi minha tarefa difundir entre os colegas a praxe que já conhecia e promover a adesão organizada daqueles, tarefa levada a cabo com notável prejuízo da finalidade primordial de um estudante – que é estudar…

Acontece que aqueles simpáticos personagens são mestres na arte da subversão: se não podes vencê-los junta-te a eles para ir minando; paulatinamente, vão-se introduzindo “novidades”, pequenos exageros que – segundo a teoria do plano inclinado – conduzem a outros maiores. Acontece que os exageros merecem censura e a aprovação generalizada rápida e facilmente se transforma em reprovação. Para os inimigos da praxe, é novamente tempo de voltar à carga com o NÃO rotundo à praxe, a que se vem assistindo em alguns estabelecimentos de ensino.

Para quem se dedicou a divulgar e difundir a verdadeira praxe – aquela que não segrega mas congrega, que não ofende mas diverte, que não aliena mas disciplina – é triste ver a que estado chegaram as coisas, o abastardamento generalizado de “praxes” feitas à medida de cada um, a obscenidade grotesca em vez da tradicional irreverência, a embriaguez até à inconsciência como princípio, meio e fim.

A quem aproveitará tal estado de coisas? Sem dúvida aos adeptos do “cinzentismo”, aos que apostam na massificação mediocrizante, no nivelamento por baixo, na anti-cultura, como meio de chegar a outros mais inconfessáveis fins: a amoralidade é mais perigosa do que a imoralidade porque torna tudo relativo e é mais fácil conquistar quem não defende convicções sólidas. O trabalho de sapa é mais apto a produzir resultados do que a contestação aberta e o que se pretende é criar autómatos, sem vontade própria, que alegremente se deixem levar como carneiros para um matadouro, servilmente obedecendo a seus amos, os dirigentes supremos, líderes carismáticos, que deles se servem como material descartável, sem qualquer respeito pela pessoa humana, cada um com as suas características próprias, naquela diversidade que desperta o interesse em vez de provocar a náusea e fazer aumentar a taxa de suicídio, tão encoberta pelos “camaradas”.


Dizerem mal da praxe não a desabona: desabona-os a eles.