Se o ridículo matasse...
Publicado no Jornal a 11/02/2000
Não é que queira fazer inveja, mas entrei no novo
ano – que não no novo milénio – em Paris; esta informação relaciona-se com o
tema a que dedico a presente e que é a passagem do ano cá pelo Porto, que foi
aquilo que se sabe. Lá pelas Franças houve mesmo festa a sério, com
fogos-de-artifício também a sério; por cá foi a “barraca” do costume, à
portuguesa, ou melhor à portuense.
Quem se der ao trabalho de prestar atenção aos meus
desmandos – coisa de que duvido – sabe que não gosto do Porto e que prefiro
Lisboa, apesar de ter aqui vivido toda a minha vida e nunca lá, a não ser em
férias. As razões também já têm sido aqui abordadas, mas vou tentar
sintetizá-las.
Em Lisboa as coisas acontecem, no Porto nada acontece;
em Lisboa as pessoas têm o espírito aberto ao progresso e ao futuro, a
novidade é bem-vinda, no Porto são retrógrados, velhos do Restelo, amarrados a
grilhetas que eles próprios colocaram no pensamento, na cultura e nas
mentalidades. Em Lisboa tudo acontece, espectáculos, música, cultura, lazer,
tudo está lá, no Porto é a miséria franciscana no seu auge. Uma Expo 98 no
Porto seria um fiasco, porque as coisas não funcionam, vá-se lá saber porquê.
Seria motivo para reflexão e debate cujo âmbito extrapola em muito a dimensão
deste espaço que ocupo, graças à benevolência do Jornal. Veja-se o que
aconteceu com o Porto 2001: sem pôr de parte as responsabilidades
“Carrilhísticas”, que foram a principal causa, pergunto-me se em Lisboa
aconteceria a mesma coisa, com ou sem Carrilho. O mesmo poderá dizer-se acerca
do metro, onde a um atraso se sucede novo atraso e não saímos disto. E assim
vai o Porto, onde o pior são efectivamente os portuenses. É óbvio que
generalizo e que há portuenses com capacidade, bem longe daquele tipo tacanho
que tanto motiva o sarcasmo lisboeta; refiro-me obviamente ao que é “normal”,
à média medíocre e não às excepções. Não há por cá – ou, pelo menos não se vê –
aquela determinação, aquela vontade de querer fazer, mesmo que com risco, mesmo
um pouco aventureira, contrariando instalados. As poucas pessoas com algum
espírito de iniciativa tropeçam nos empecilhos que lhes tolhem os movimentos e
tudo acaba por ficar pelo caminho, sem chegar à meta que se havia proposto.
Desta vez foi o fim de ano: em todo o mundo o início
do ano 2000 apareceu envolvido de uma certa mística e os festejos da sua
chegada – que muitos confundem com a chegada do terceiro milénio e não com o
fim do segundo, como na realidade é – foram anunciados com a solenidade e o
brilho condizentes com aquela aura mágica; em todo o mundo, assim nos mostraram
as televisões, festas, música, fogos-de-artifício majestosos. O burgo tripeiro
não quis ficar atrás e vá de anunciar grande festança na “sala de visitas” que
é a Avenida dos Aliados; foi o fiasco que se viu: por causa de falhas mais ou
menos técnicas, exorcizadas nas conferências de imprensa, sacudindo mais ou
menos a água do capote, como se as máquinas fossem auto-suficientes e não precisassem
de alguém para as fazer movimentar. Quando algo falha, costuma dizer-se que a
culpa morreu solteira porque ninguém a quis e é o caso: os mecanismos podem ser
muito sofisticados mas alguém os preparou, alguém que devia ter cuidados especiais
para que nada falhasse.
Toda a gente
sabe que, mesmo com cuidados, há imponderáveis e imprevistos que o humano não
domina, aquilo que em Direito é conhecido como o “caso fortuito”, quanto mais
se as coisas forem feitas com ligeireza, como quem diz “para quem é, bacalhau
basta”.
E o fiasco aconteceu; foi um balde de água fria para
o pobre cidadão que saiu do conforto da sua casa para ir até à “Praça” ver o
espectáculo da passagem de ano. Como é óbvio, uma satisfação era devida e
exigida; todavia, a satisfação passaria por uma explicação do sucedido, um
pedido de desculpas, uma responsabilidade efectiva de alguém a quem devesse
ser imputada. A tentativa grosseira e provinciana de “fintar” o calendário, o
faz de conta que é passagem de ano, em vez de se calarem muito calados, fazerem
alarde do seu falhanço, em grandes parangonas...
Mas será que esta gente não tem noção do ridículo?!
E o que mais entristece é que não faltarão os basbaques, os idiotas úteis
olhando de boca aberta o foguetório e achando que foi uma grande coisa, quando
na realidade mereceria entrar
para o Guiness na categoria de disparates.


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