segunda-feira, abril 20, 2015

Se o ridículo matasse...

Publicado no Jornal a 11/02/2000

Não é que queira fazer inveja, mas entrei no novo ano – que não no novo milé­nio – em Paris; esta informa­ção relaciona-se com o tema a que dedico a presente e que é a passagem do ano cá pelo Porto, que foi aquilo que se sabe. Lá pelas Franças houve mesmo festa a sério, com fogos-de-artifício também a sério; por cá foi a “barraca” do costume, à portuguesa, ou melhor à portuense.

Quem se der ao trabalho de prestar atenção aos meus desmandos – coisa de que duvido – sabe que não gosto do Porto e que prefiro Lisboa, apesar de ter aqui vivido toda a minha vida e nunca lá, a não ser em férias. As razões tam­bém já têm sido aqui aborda­das, mas vou tentar sintetizá-las.

Em Lisboa as coisas acon­tecem, no Porto nada aconte­ce; em Lisboa as pessoas têm o espírito aberto ao progres­so e ao futuro, a novidade é bem-vinda, no Porto são retrógrados, velhos do Restelo, amarrados a grilhetas que eles próprios colocaram no pen­samento, na cultura e nas mentalidades. Em Lisboa tudo acontece, espectáculos, mú­sica, cultura, lazer, tudo está lá, no Porto é a miséria franciscana no seu auge. Uma Expo 98 no Porto seria um fiasco, porque as coisas não funcionam, vá-se lá saber porquê. Seria motivo para reflexão e debate cujo âmbi­to extrapola em muito a di­mensão deste espaço que ocupo, graças à benevolên­cia do Jornal. Veja-se o que aconteceu com o Porto 2001: sem pôr de parte as responsabilidades “Carrilhísticas”, que foram a principal causa, pergunto-me se em Lisboa aconteceria a mesma coisa, com ou sem Carrilho. O mesmo poderá dizer-se acer­ca do metro, onde a um atra­so se sucede novo atraso e não saímos disto. E assim vai o Porto, onde o pior são efec­tivamente os portuenses. É óbvio que generalizo e que há portuenses com capacidade, bem longe daquele tipo taca­nho que tanto motiva o sar­casmo lisboeta; refiro-me ob­viamente ao que é “normal”, à média medíocre e não às excepções. Não há por cá – ou, pelo menos não se vê – aquela determinação, aquela vontade de querer fazer, mesmo que com risco, mes­mo um pouco aventureira, contrariando instalados. As poucas pessoas com algum espírito de iniciativa trope­çam nos empecilhos que lhes tolhem os movimentos e tudo acaba por ficar pelo cami­nho, sem chegar à meta que se havia proposto.

Desta vez foi o fim de ano: em todo o mundo o início do ano 2000 apareceu envolvi­do de uma certa mística e os festejos da sua chegada – que muitos confundem com a che­gada do terceiro milénio e não com o fim do segundo, como na realidade é – foram anunciados com a solenidade e o brilho condizentes com aquela aura mágica; em todo o mundo, assim nos mostra­ram as televisões, festas, música, fogos-de-artifício majestosos. O burgo tripeiro não quis ficar atrás e vá de anunciar grande festança na “sala de visitas” que é a Ave­nida dos Aliados; foi o fiasco que se viu: por causa de fa­lhas mais ou menos técnicas, exorcizadas nas conferências de imprensa, sacudindo mais ou menos a água do capote, como se as máquinas fossem auto-suficientes e não preci­sassem de alguém para as fazer movimentar. Quando algo falha, costuma dizer-se que a culpa morreu solteira porque ninguém a quis e é o caso: os mecanismos podem ser muito sofisticados mas al­guém os preparou, alguém que devia ter cuidados espe­ciais para que nada falhasse.

Toda a gente sabe que, mes­mo com cuidados, há imponderáveis e imprevistos que o humano não domina, aquilo que em Direito é co­nhecido como o “caso fortui­to”, quanto mais se as coisas forem feitas com ligeireza, como quem diz “para quem é, bacalhau basta”.

E o fiasco aconteceu; foi um balde de água fria para o pobre cidadão que saiu do conforto da sua casa para ir até à “Praça” ver o espectá­culo da passagem de ano. Como é óbvio, uma satisfa­ção era devida e exigida; to­davia, a satisfação passaria por uma explicação do suce­dido, um pedido de descul­pas, uma responsabilidade efectiva de alguém a quem devesse ser imputada. A ten­tativa grosseira e provinciana de “fintar” o calendário, o faz de conta que é passagem de ano, em vez de se calarem muito calados, fazerem alar­de do seu falhanço, em gran­des parangonas...


Mas será que esta gente não tem noção do ridículo?! E o que mais entristece é que não faltarão os basbaques, os idiotas úteis olhando de boca aberta o foguetório e achan­do que foi uma grande coisa, quando na realidade mereceria entrar para o Guiness na categoria de disparates.