Caminhos do Homem
Publicado
no Jornal a 10/07/1998
Subitamente
tudo começou a esclarecer-se-nos no seu vazio. Todas as ideologias e propostas
culturais, das artes à filosofia, todo o significado positivo ou negativo da
religião e o mais, de repente reparámos que não têm viabilidade para nos
movimentarem uma adesão ou uma recusa.
O autor aborda nesta passagem o
tema da axiologia; numa definição necessariamente redutora – como toda e
qualquer definição – a axiologia será a Filosofia dos valores, a busca do
sentido do Bem e do Mal. Ora, o que acontece é que vivemos uma época de falta
de valores que nos norteiem. A relativização, a perda de referências,
trouxeram-nos a esta situação. Tudo depende, sabe-se lá, não há padrões seguros
pelos quais possamos orientar-nos. E tudo quanto conhecemos e que em tempos
serviu para nos orientarmos está posto em causa.
Mesmo
ao nível das evidências mais elementares.
Nos últimos tempos destes que são a
viragem do milénio, tem-se falado muito de crises. Sobretudo da maior crise que
é a dos valores. Após o teocentrismo medieval contrapôs-se-lhe a resposta
antagónica de um humanismo, caminho encetado na busca de si, dentro de si
próprio. Assim se chega ao ponto em que estamos: tanto se procurou e nada se
achou. É certo que o mundo se move pelas ideias e o mesmo é dizer que o
espírito do homem condiciona a evolução do mundo. Mas que mundo? E que futuro,
perante este presente de desencanto, de utilitarismo, de um subjectivismo em
que se perdeu o sentido da sociabilidade? A procura de respostas em si próprio
levou ao levantamento de grades de isolamento e o fechar-se sobre si.
E isto nota-se particularmente na
Europa, o chamado berço da Civilização, como bem nota o Autor. Com efeito, a
ideia de civilização que temos actualmente, tem na sua génese a raiz
greco-romana influenciada pela presença sensível do cristianismo, mas o seu
retrato actual está patente no que já se disse.
Caminhamos a passos largos para uma
Europa sem europeus, pois os outros povos e principalmente os afro-asiáticos
reproduzem-se sem outros constrangimentos que não sejam os decorrentes da sua
vontade; esses não conhecem malthusianismos e já estão por aí: mão-de-obra
barata e sem dúvida os futuros povoadores deste espaço que pensamos ser nosso;
será inevitável se continuarmos por este caminho.
O
mundo vai começar, o homem vai reinventar-se a si, sem recurso a nada que
esteja fora de si. É uma era nova e radicalmente diferente. Mas avançamos para
ela de mãos nuas e inteligência desabitada. Como é que o homem se vai
reorganizar sem um motivo de reorganização?
O que será então o futuro do Homem?
Parece que a resposta está na sociabilidade, no sentido do outro. Sem querer
entrar na polémica do carácter social do Homem – para Aristóteles ele é um animal social e a sociabilidade faz
parte da sua natureza, enquanto para outros como Rousseau a sociabilidade é um acto de vontade, um pacto, um
consenso – sempre se dirá que se quisermos transformar um homem num bicho,
tiremos-lhe os relacionamentos com o seu semelhante. E é sabido que o Social
implica compromissos de interesses, a aprendizagem das mútuas cedências. Será
esse o ponto de partida – que a nós parece insuperável – da construção do
futuro. Temos de tomar consciência das consequências inevitavelmente funestas deste
caminho actualmente seguido e invertê-lo, enveredando pelo da busca contínua de
convivência com o outro, pois para ele o outro somos nós. Há também que
reencontrar aqueles valores imutáveis, os princípios orientadores daquela
Civilização, que atrás se referiu e que estão esquecidos, como esquecido está o
facto de que há coisas que não podem contrariar-se sem que daí advenham
consequências das quais só haverá que lamentar. Será assim uma procura humana,
centrando-se no Homem, mas sem esquecer todas as suas facetas e principalmente
a sociabilidade, sem que se caia na tentação de dar mais importância a esta ou
aquela, sem que se esqueça uma em detrimento de outra.
Nota: os
itálicos são citações de um excerto de Vergílio
Ferreira, Pensar, Bertrand Editora, Lisboa, 1992, que serviu de
ponto de partida.


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