sexta-feira, abril 10, 2015

Caminhos do Homem

Publicado no Jornal a 10/07/1998

Subitamente tudo começou a esclarecer-se-nos no seu vazio. Todas as ideologias e propostas culturais, das artes à filosofia, todo o significado positivo ou negativo da religião e o mais, de repente reparámos que não têm viabilidade para nos movimentarem uma adesão ou uma recusa.

O autor aborda nesta passagem o tema da axiologia; numa definição necessariamente redutora – como toda e qualquer definição – a axiologia será a Filosofia dos valores, a busca do sentido do Bem e do Mal. Ora, o que acontece é que vivemos uma época de falta de valores que nos norteiem. A relativização, a perda de referências, trouxeram-nos a esta situação. Tudo depende, sabe-se lá, não há padrões seguros pelos quais possamos orientar-nos. E tudo quanto conhecemos e que em tempos serviu para nos orientarmos está posto em causa.

Mesmo ao nível das evidências mais elementares.

Nos últimos tempos destes que são a viragem do milénio, tem-se falado muito de crises. Sobretudo da maior crise que é a dos valores. Após o teocentrismo medieval contrapôs-se-lhe a resposta antagónica de um humanismo, caminho encetado na busca de si, dentro de si próprio. Assim se chega ao ponto em que estamos: tanto se procurou e nada se achou. É certo que o mundo se move pelas ideias e o mesmo é dizer que o espírito do homem condiciona a evolução do mundo. Mas que mundo? E que futuro, perante este presente de desencanto, de utilitarismo, de um subjectivismo em que se perdeu o sentido da sociabilidade? A procura de respostas em si próprio levou ao levantamento de grades de isolamento e o fechar-se sobre si.

E isto nota-se particularmente na Europa, o chamado berço da Civilização, como bem nota o Autor. Com efeito, a ideia de civilização que temos actualmente, tem na sua génese a raiz greco-romana influenciada pela presença sensível do cristianismo, mas o seu retrato actual está patente no que já se disse.

Caminhamos a passos largos para uma Europa sem europeus, pois os outros povos e principalmente os afro-asiáticos reproduzem-se sem outros constrangimentos que não sejam os decorrentes da sua vontade; esses não conhecem malthusianismos e já estão por aí: mão-de-obra barata e sem dúvida os futuros povoadores deste espaço que pensamos ser nosso; será inevitável se continuarmos por este caminho.

O mundo vai começar, o homem vai reinventar-se a si, sem recurso a nada que esteja fora de si. É uma era nova e radicalmente diferente. Mas avançamos para ela de mãos nuas e inteligência desabitada. Como é que o homem se vai reorganizar sem um motivo de reorganização?

O que será então o futuro do Homem? Parece que a resposta está na sociabilidade, no sentido do outro. Sem querer entrar na polémica do carácter social do Homem – para Aristóteles ele é um animal social e a sociabilidade faz parte da sua natureza, enquanto para outros como Rousseau a sociabilidade é um acto de vontade, um pacto, um consenso – sempre se dirá que se quisermos transformar um homem num bicho, tiremos-lhe os relacionamentos com o seu semelhante. E é sabido que o Social implica compromissos de interesses, a aprendizagem das mútuas cedências. Será esse o ponto de partida – que a nós parece insuperável – da construção do futuro. Temos de tomar consciência das consequências inevitavelmente funestas deste caminho actualmente seguido e invertê-lo, enveredando pelo da busca contínua de convivência com o outro, pois para ele o outro somos nós. Há também que reencontrar aqueles valores imutáveis, os princípios orientadores daquela Civilização, que atrás se referiu e que estão esquecidos, como esquecido está o facto de que há coisas que não podem contrariar-se sem que daí advenham consequências das quais só haverá que lamentar. Será assim uma procura humana, centrando-se no Homem, mas sem esquecer todas as suas facetas e principalmente a sociabilidade, sem que se caia na tentação de dar mais importância a esta ou aquela, sem que se esqueça uma em detrimento de outra.


Nota: os itálicos são citações de um excerto de Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand Editora, Lisboa, 1992, que serviu de ponto de partida.