quarta-feira, novembro 04, 2015

A lição de Manuel Alegre



As últimas eleições presidenciais trouxeram uma novidade ao estagnado panorama político português. Com a devida antecedência foi anunciada – e já se adivinhava – a candidatura de Cavaco Silva. À esquerda fazia falta a alternativa que acabou por surgir um pouco atabalhoadamente. Ao arrepio de tudo o que se pensava nos diversos quadrantes lá apareceu Mário Soares, trazendo grande desconforto no eleitorado e na classe política, principalmente dentro do seu partido. A verdade é que também já se adivinhava que Manuel Alegre avançasse. Avançou e fez muito bem.

Contra tudo e contra todos, contra o “aparelho” do seu partido apresentou-se ao eleitorado que o premiou com um segundo lugar. O Partido Socialista – de onde Soares e Alegre são oriundos – fez o “frete” a Soares: pronto, o homem candidatou-se, lá vamos ter de apoiá-lo.

Sem grandes apoios sonantes, Manuel Alegre acabou por reunir à sua volta apoios dos quais apenas se salienta, como saído do espectro partidário, o nome de Helena Roseta.

Mas a candidatura de Manuel Alegre significou muitas outras coisas. Tem sido abundantes os comentários e ainda muito estará por dizer. Do resultado das eleições há várias ilações a tirar. Desde logo, o PS está a transformar-se decisivamente num partido social-democrático enquanto a matriz política do antigo PS, que lhe vem da sua fundação em 1973, se revê em Manuel Alegre.

Mas há mais: o movimento cívico, o envolvimento invulgar de cidadãos que não se revêem no actual sistema político, que disseram não à partidocracia. Há, com efeito, muita gente descontente com o actual estado de coisas, com a corrupção generalizada e impune; são pessoas socialmente activas, que querem fazer algo, melhorar o que vêm a sua volta, nomeadamente resolver os seus problemas quotidianos. Acontece que o sistema partidocrático existente, que exclui outras formas de participação na coisa pública, não lhes permite uma actuação eficaz e está profundamente desacreditado.

Manuel Alegre soube chamar a si essas pessoas e congregá-las à sua volta. Seria bom que se reflectisse profundamente sobre esta movimentação cívica.

Seria ainda melhor que fosse habitual as pessoas não se resignarem, manifestarem-se. Bom seria que toda essa movimentação conseguisse que estivéssemos dotados de instituições prestigiadas e prestigiantes, que Portugal e os portugueses deixassem de ser olhados como exemplo negativo e passassem a ser olhados como exemplo positivo.