A lição de Manuel Alegre
As últimas
eleições presidenciais trouxeram uma novidade ao estagnado panorama político
português. Com a devida antecedência foi anunciada – e já se adivinhava – a
candidatura de Cavaco Silva. À
esquerda fazia falta a alternativa que acabou por surgir um pouco
atabalhoadamente. Ao arrepio de tudo o que se pensava nos diversos quadrantes
lá apareceu Mário Soares, trazendo
grande desconforto no eleitorado e na classe política, principalmente dentro do
seu partido. A verdade é que também já se adivinhava que Manuel Alegre avançasse. Avançou e fez
muito bem.
Contra
tudo e contra todos, contra o “aparelho” do seu partido apresentou-se ao
eleitorado que o premiou com um segundo lugar. O Partido Socialista – de onde Soares e Alegre
são oriundos – fez o “frete” a Soares:
pronto, o homem candidatou-se, lá vamos ter de apoiá-lo.
Sem
grandes apoios sonantes, Manuel Alegre
acabou por reunir à sua volta apoios dos quais apenas se salienta, como saído
do espectro partidário, o nome de Helena
Roseta.
Mas a
candidatura de Manuel Alegre
significou muitas outras coisas. Tem sido abundantes os comentários e ainda
muito estará por dizer. Do resultado das eleições há várias ilações a tirar.
Desde logo, o PS está a transformar-se decisivamente num partido
social-democrático enquanto a matriz política do antigo PS, que lhe vem da sua
fundação em 1973, se revê em Manuel
Alegre.
Mas há
mais: o movimento cívico, o envolvimento invulgar de cidadãos que não se revêem
no actual sistema político, que disseram não à partidocracia. Há, com efeito,
muita gente descontente com o actual estado de coisas, com a corrupção
generalizada e impune; são pessoas socialmente activas, que querem fazer algo,
melhorar o que vêm a sua volta, nomeadamente resolver os seus problemas
quotidianos. Acontece que o sistema partidocrático existente, que exclui outras
formas de participação na coisa pública, não lhes permite uma actuação eficaz e
está profundamente desacreditado.
Manuel Alegre soube chamar a si essas pessoas e congregá-las à
sua volta. Seria bom que se reflectisse profundamente sobre esta movimentação
cívica.
Seria
ainda melhor que fosse habitual as pessoas não se resignarem, manifestarem-se.
Bom seria que toda essa movimentação conseguisse que estivéssemos dotados de
instituições prestigiadas e prestigiantes, que Portugal e os portugueses
deixassem de ser olhados como exemplo negativo e passassem a ser olhados como
exemplo positivo.


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