Direito à indignação
Enviaram-me
por correio electrónico o texto que reproduzo:
Caros
amigos:
Pedimos desculpa pela ousadia deste email, mas temos direito à
indignação.
O teatro da comuna está a exibir (ou vai exibir) uma peça espanhola que se
chama "Me cago en Dios" e está a
exibir cartazes de promoção em que aparece uma retrete aonde está a ser lançada
uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, um Crucifixo e outros objectos de culto.
Envio-vos a lista dos patrocinadores (e respectivos endereços electrónicos)
e peço que divulguem porque isto é absurdo...
Não queremos proibir nada, nem coarctar a liberdade de expressão e de arte.
Queremos é que não seja o estado, nós, a pagar isto...Como verão, são
quase
todos instituições do Estado.
Patrocinadores:
·
Ministério da Cultura:
·
gsec@mc.gov.pt
·
infocultura@min-cultura.pt
·
ffcmc@mail.min-cultura.pt
·
mcgri@mail.telepac.pt
·
igacgeral@igac.pt
·
Centro Cultural de Belém:
·
ccb@ccb.pt
·
Instituto das Artes:
·
geral@iartes.pt
·
Embaixada de Espanha
·
Câmara Municipal de Lisboa
·
Fábrica Valadares:
·
comercial@valadares.com
·
joanaulisses@valadares.com
·
Teatro da Comuna:
·
teatrocomuna@sapo.pt
Se
concordam connosco, divulguem e manifestem indignação.
Se
discordam, pedimos desculpa pela ousadia e tempo ocupado.
As nossas saudações
Fiquei,
naturalmente abismado; dei comigo a pensar que devo ser um “bota-de-elástico” a
quem estas coisas ainda chocam.
Ainda há
pouco tempo surgiu por aí uma grande polémica quando foram publicadas umas
caricaturas do profeta Maomé. A comunidade islâmica insurgiu-se num todo e os
fanáticos logo prometeram sangue. Timidamente, aqueles que “ousaram” a
publicação, deram umas desculpas esfarrapadas e a coisa acabou por acalmar.
Quando era
criança ensinaram-me que é preciso respeitar os outros; por variadas razões.
Desde logo, porque também gostamos de ser respeitados. Ser virtuoso por amor à
virtude e não por medo seja do que for. Foram-me também incutidos princípios de
religião: dotado com a Fé, fui sendo nela educado ou, se preferirem,
catequizado. Aprendi o ecumenismo, aprendi que a minha religião não era a única
e que já não vivíamos o tempo em que a religião se impunha pela força da
espada. Entro com respeito em qualquer templo porque sei que ali as pessoas
procuram melhorar; não aprovando certo tipo de charlatanismo promovido por
alguns, sou pessoa de diálogo, nunca me recusei a falar fosse com quem fosse:
exponho os meus pontos de vista mostrando claramente que não coincidem muitas
vezes com outros que me trazem.
Em
política existe a democracia cujo principal corolário é a liberdade de
expressão. Outra das coisas que me ensinaram é que liberdade envolve
responsabilidade: a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro.
De outro modo, quando se faz o que se quer, do modo que se quer, sem ter em
consideração as outras pessoas, não é liberdade mas sim libertinagem. Então
entramos numa barbárie pior do que a selvajaria.
Maomé foi
um profeta de paz, um Homem de Deus que defendeu valores muito próximos
daqueles que defendem todas as pessoas de bem e há muitos muçulmanos que são
pessoas de bem. Dizer que todos os muçulmanos são terroristas, ou fanáticos, ou
fundamentalistas é um tremendo disparate. Uma caricatura é sempre um exagero e,
face aos acontecimentos, é natural que haja quem receie alguns muçulmanos. Já
não é natural que se receie e se critique o Islão no seu todo.
Da mesma
forma, a Igreja Católica – e todas as religiões, afinal – têm muito que se lhe
critique. É incontornável referir a Inquisição, como algo de profundamente
negativo na história da humanidade. Não me choca que se use o humor na
religião; não me choca que se critique o que ela tiver de mau. Respeito as
pessoas que não acreditam em Deus mas tenho igual direito a ser respeitado por
elas e a sentir-me indignado por ofensas gratuitas e de mau gosto que apenas
visam destruir. Respeito as pessoas que não se interessam por Deus mas tenho
igual direito a que não me faltem ao respeito.
Sou
católico, como a grande maioria dos portugueses; o Estado e os entes públicos
não professam religião mas estão obrigados – pelo seu estatuto – a respeitar
todas as religiões e a ausência de religião. Por isso afirmo que o Estado – que
representa todos os portugueses – não deve promover, apoiar, de algum modo
incentivar, algo que fere o sentimento religioso desses mesmos portugueses.
Há limites
para tudo. Há algo que é conhecido por bom senso. Ofender de forma grosseira,
ordinária e obscena é profundamente censurável; apoiar tais actos com dinheiro
dos contribuintes, só em Portugal é possível.


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