quarta-feira, novembro 04, 2015

Direito à indignação



Enviaram-me por correio electrónico o texto que reproduzo:

Caros amigos:

Pedimos desculpa pela ousadia deste email, mas temos direito à indignação.
O teatro da comuna está a exibir (ou vai exibir) uma peça espanhola que se chama "Me cago en Dios"  e está a exibir cartazes de promoção em que aparece uma retrete aonde está a ser lançada uma imagem de Nossa Senhora de  Fátima, um Crucifixo e outros objectos de culto.
Envio-vos a lista dos patrocinadores (e respectivos endereços electrónicos) e peço que divulguem porque isto é absurdo...

Não queremos proibir nada, nem coarctar a liberdade de expressão e de arte.
Queremos é que não seja o estado, nós, a pagar isto...Como verão, são
quase todos instituições do Estado.

Patrocinadores:

·                  Ministério da Cultura:
·                  gmc@mc.gov.pt
·                  gsec@mc.gov.pt
·                  infocultura@min-cultura.pt
·                  ffcmc@mail.min-cultura.pt
·                  mcgri@mail.telepac.pt
·                  igacgeral@igac.pt

·                  Centro Cultural de Belém:
·                  ccb@ccb.pt

·                  Instituto das Artes:
·                  geral@iartes.pt

·                  Embaixada de Espanha

·                  Câmara Municipal de Lisboa

·                  Fábrica Valadares:
·                  comercial@valadares.com
·                  joanaulisses@valadares.com

·                  Teatro da Comuna:
·                  teatrocomuna@sapo.pt

Se concordam connosco, divulguem e manifestem indignação.

Se discordam, pedimos desculpa pela ousadia e tempo ocupado.

As nossas saudações

Fiquei, naturalmente abismado; dei comigo a pensar que devo ser um “bota-de-elástico” a quem estas coisas ainda chocam.

Ainda há pouco tempo surgiu por aí uma grande polémica quando foram publicadas umas caricaturas do profeta Maomé. A comunidade islâmica insurgiu-se num todo e os fanáticos logo prometeram sangue. Timidamente, aqueles que “ousaram” a publicação, deram umas desculpas esfarrapadas e a coisa acabou por acalmar.

Quando era criança ensinaram-me que é preciso respeitar os outros; por variadas razões. Desde logo, porque também gostamos de ser respeitados. Ser virtuoso por amor à virtude e não por medo seja do que for. Foram-me também incutidos princípios de religião: dotado com a Fé, fui sendo nela educado ou, se preferirem, catequizado. Aprendi o ecumenismo, aprendi que a minha religião não era a única e que já não vivíamos o tempo em que a religião se impunha pela força da espada. Entro com respeito em qualquer templo porque sei que ali as pessoas procuram melhorar; não aprovando certo tipo de charlatanismo promovido por alguns, sou pessoa de diálogo, nunca me recusei a falar fosse com quem fosse: exponho os meus pontos de vista mostrando claramente que não coincidem muitas vezes com outros que me trazem.

Em política existe a democracia cujo principal corolário é a liberdade de expressão. Outra das coisas que me ensinaram é que liberdade envolve responsabilidade: a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro. De outro modo, quando se faz o que se quer, do modo que se quer, sem ter em consideração as outras pessoas, não é liberdade mas sim libertinagem. Então entramos numa barbárie pior do que a selvajaria.

Maomé foi um profeta de paz, um Homem de Deus que defendeu valores muito próximos daqueles que defendem todas as pessoas de bem e há muitos muçulmanos que são pessoas de bem. Dizer que todos os muçulmanos são terroristas, ou fanáticos, ou fundamentalistas é um tremendo disparate. Uma caricatura é sempre um exagero e, face aos acontecimentos, é natural que haja quem receie alguns muçulmanos. Já não é natural que se receie e se critique o Islão no seu todo.

Da mesma forma, a Igreja Católica – e todas as religiões, afinal – têm muito que se lhe critique. É incontornável referir a Inquisição, como algo de profundamente negativo na história da humanidade. Não me choca que se use o humor na religião; não me choca que se critique o que ela tiver de mau. Respeito as pessoas que não acreditam em Deus mas tenho igual direito a ser respeitado por elas e a sentir-me indignado por ofensas gratuitas e de mau gosto que apenas visam destruir. Respeito as pessoas que não se interessam por Deus mas tenho igual direito a que não me faltem ao respeito.

Sou católico, como a grande maioria dos portugueses; o Estado e os entes públicos não professam religião mas estão obrigados – pelo seu estatuto – a respeitar todas as religiões e a ausência de religião. Por isso afirmo que o Estado – que representa todos os portugueses – não deve promover, apoiar, de algum modo incentivar, algo que fere o sentimento religioso desses mesmos portugueses.

Há limites para tudo. Há algo que é conhecido por bom senso. Ofender de forma grosseira, ordinária e obscena é profundamente censurável; apoiar tais actos com dinheiro dos contribuintes, só em Portugal é possível.