Eleições e futuro
Publicado no Jornal a 03/11/1995
O
resultado eleitoral do passado dia l de Outubro foi, sem dúvida, o mais natural
por muitas razões.
Após
os tempos conturbados de instabilidade revolucionária, do PREC e de uma quase
inevitável atracção para o abismo,
quando em 1979 surgiu a Aliança Democrática, pela mão do maior Estadista que Portugal conheceu nesta segunda metade
do século, uma personalidade salientou-se e foi reconhecida como o melhor Ministro
daquele Governo; tratava-se de Aníbal Cavaco Silva;
depois foi a tragédia criminosa de 4 de Dezembro e novamente se assistiu
ao espectáculo preocupante de um país que tinha perdido a esperança. A AD cavou
a sua própria sepultura, veio o Bloco Central e já se desesperava de voltar a
ver esta nossa terra “entrar nos eixos”: para onde quer que se olhasse via-se a
incompetência e nada mais.
Aconteceu
o Congresso da Figueira e sob a orientação de Cavaco Silva, os Portugueses voltaram a pôr a esperança no
seu vocabulário.
Quando
o PSD concorreu às eleições de 1987, este vosso amigo pensou com os seus botões
que a maioria absoluta podia ser atingida à tangente e que o resultado
eleitoral seria algo inferior ao de Freitas do Amaral nas
presidenciais de 86; sabe-se hoje que o resultado foi superior e o novo Governo
teve preocupação de fazer obra, mostrar competência.
Naturalmente
cumpriu até ao fim a legislatura e voltou a ganhar em 1991; já nessa altura, um
saudoso Amigo que infelizmente já nos deixou, dizia que o trabalho era visível,
obra com valor, mas que não faria mal nenhum – muito pelo contrário – se
houvesse um “conselhozinho fiscal”.
Veio
o 2º Governo Cavaco Silva e foi o que se viu; cria fama e
deita-te na cama, como diz o adágio.
A
coisa era de tal modo que já há muito tempo, muito boa gente vinha dizendo que
era merecida uma ensinadela, o que veio a acontecer.
Por
razões que, para já, não se descortinam, o 2º Governo Cavaco Silva, ao contrário do 1º, foi o retrato
fiel de tudo quanto não deve fazer-se; não
se sabe, nem ninguém se aventurou a dar explicação para tal
comportamento mas ele era um facto e a vitória do PS já se adivinhava.
Foi
uma boa vitória, com uma maioria suficientemente confortável para não precisar
do apoio de outros partidos mas, ainda assim, sem poder descansar à sombra da
maioria absoluta. A experiência mostrou-nos quão nociva pode ser uma tal
maioria, entregue a um só partido.
Dificilmente
se imagina que um político experiente e inteligente como Cavaco Silva tenha
deixado acontecer a calamidade sem a prever nas suas consequências. Ele tinha
obrigação de saber que a política do seu 2º Governo era socialmente desastrosa
e eleitoralmente mortífera. E tanto o sabia que se afastou para não ter de
arcar com o peso da derrota; saiu, como se nada tivesse a ver com tudo aquilo,
arranjando um “bombo da festa”. Hoje, ousa-se afirmar que o Congresso do PSD
foi ganho por F. Nogueira porque Cavaco Silva assim o quis; a derrota era inevitável; para os seus projectos de
candidatura à Presidência da República, convinha-lhe o afastamento; era preciso
alguém para queimar. Entre os 3 candidatos o “feliz contemplado” foi F. Nogueira.
Santana Lopes nunca se
prestaria a esse papel e Durão Barroso se
estivesse pelos ajustes – pouco provável! – obteria um resultado eleitoral
muito acima do que F. Nogueira obteve, o que não serviria os propósitos de Cavaco Silva
que precisava de uma derrota mas de modo a deixar ao PSD a possibilidade de se
reerguer pela mão de uma liderança eficaz que Durão Barroso
estará em condições de personificar. Vai daí, arranjou-se um personagem
sem brilho, cinzento. F. Nogueira é a pessoa ideal para se
sentar por detrás de uma secretária, mas não é mediático, não transmite
convicção, nem tem carisma e não conseguia aguentar um Comício sem ficar rouco.
Resta
saber se o trambolhão não foi
maior do que seria desejável; Cavaco Silva, prevendo
a derrota, afastou-se para se proteger e poder candidatar-se à Presidência da
República, apostando na alternância e na compensação que se tem verificado. Com
o PS no Governo, Cavaco Silva, na Presidência
da República, aproveitaria para dissolver a Assembleia e convocar eleições no
momento em que o PS estivesse mais debilitado, de modo a conseguir a almejada
trilogia “Maioria, Governo, Presidente”.
Com
uma derrota tão estrondosa, Cavaco Silva viu-se
atingido pessoalmente, mas finge ignorar que foi o seu Governo e a sua
política quem produziu o resultado obtido pelo PSD.
Resta
saber como irá o eleitorado encarar a candidatura de Cavaco Silva; é bem verdade que o Povo tem memória
curta e Cavaco
Silva é uma figura
carismática.
Quanto
ao PS espera-se que não seja o mesmo que mostrou noutras alturas tanta incompetência;
espera-se que A.
Guterres seja capaz de
personificar um novo PS, moldado pelos Estados Gerais, e sobretudo que o velho
PS não venha ao de cima.
Estaremos
atentos para ver e comentar.


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