sexta-feira, janeiro 10, 2014

Eleições e futuro

Publicado no Jornal a 03/11/1995

O resultado eleitoral do passado dia l de Outubro foi, sem dúvida, o mais natural por muitas razões.

Após os tempos conturbados de instabilidade revolucionária, do PREC e de uma quase inevitável atracção para o abismo, quando em 1979 surgiu a Aliança Democrática, pela mão do maior Estadista que Portugal conheceu nesta segunda metade do século, uma personalidade salientou-se e foi reconhecida como o melhor Ministro daquele Governo; tratava-se de Aníbal Cavaco Silva; depois foi a tragédia criminosa de 4 de Dezembro e novamente se assistiu ao espectáculo preocupante de um país que tinha perdido a esperança. A AD cavou a sua própria sepultura, veio o Bloco Central e já se desesperava de voltar a ver esta nossa terra “entrar nos eixos”: para onde quer que se olhasse via-se a incompetência e nada mais.

Aconteceu o Congresso da Figueira e sob a orientação de Cavaco Silva, os Portugueses voltaram a pôr a esperança no seu vocabulário.

Quando o PSD concorreu às eleições de 1987, este vosso amigo pensou com os seus botões que a maioria absoluta podia ser atingida à tangente e que o resultado eleitoral seria algo inferior ao de Freitas do Amaral nas presidenciais de 86; sabe-se hoje que o resultado foi superior e o novo Governo teve preocupação de fazer obra, mostrar competência.

Naturalmente cumpriu até ao fim a legislatura e voltou a ganhar em 1991; já nessa altura, um saudoso Amigo que infelizmente já nos deixou, dizia que o trabalho era visível, obra com valor, mas que não faria mal nenhum – muito pelo contrário – se houvesse um “conselhozinho fiscal”.

Veio o Governo Cavaco Silva e foi o que se viu; cria fama e deita-te na cama, como diz o adágio.

A coisa era de tal modo que já há muito tempo, muito boa gente vinha dizendo que era merecida uma ensinadela, o que veio a acontecer.

Por razões que, para já, não se descortinam, o 2º Governo Cavaco Silva, ao contrário do 1º, foi o retrato fiel de tudo quanto não deve fazer-se; não se sabe, nem ninguém se aventurou a dar explicação para tal comportamento mas ele era um facto e a vitória do PS já se adivinhava.

Foi uma boa vitória, com uma maioria suficientemente confortável para não precisar do apoio de outros partidos mas, ainda assim, sem poder descansar à sombra da maioria absoluta. A experiência mostrou-nos quão nociva pode ser uma tal maioria, entregue a um só partido.

Dificilmente se imagina que um político experiente e inteligente como Cavaco Silva tenha deixado acontecer a calamidade sem a prever nas suas consequências. Ele tinha obrigação de saber que a política do seu 2º Governo era socialmente desastrosa e eleitoralmente mortífera. E tanto o sabia que se afastou para não ter de arcar com o peso da derrota; saiu, como se nada tivesse a ver com tudo aquilo, arranjando um “bombo da festa”. Hoje, ousa-se afirmar que o Congresso do PSD foi ganho por F. Nogueira porque Cavaco Silva assim o quis; a derrota era inevitável; para os seus projectos de candidatura à Presidência da República, convinha-lhe o afastamento; era preciso alguém para queimar. Entre os 3 candidatos o “feliz contemplado” foi F. Nogueira. Santana Lopes nunca se prestaria a esse papel e Durão Barroso se estivesse pelos ajustes – pouco provável! – obteria um resultado eleitoral muito acima do que F. Nogueira obteve, o que não serviria os propósitos de Cavaco Silva que precisava de uma derrota mas de modo a deixar ao PSD a possibilidade de se reerguer pela mão de uma liderança eficaz que Durão Barroso estará em condições de personificar. Vai daí, arranjou-se um personagem sem brilho, cinzento. F. Nogueira é a pessoa ideal para se sentar por detrás de uma secretária, mas não é mediático, não transmite convicção, nem tem carisma e não conseguia aguentar um Comício sem ficar rouco.

Resta saber se o trambolhão não foi maior do que seria desejável; Cavaco Silva, prevendo a derrota, afastou-se para se proteger e poder candidatar-se à Presidência da República, apostando na alternância e na compensação que se tem verificado. Com o PS no Governo, Cavaco Silva, na Presidência da República, aproveitaria para dissolver a Assembleia e convocar eleições no momento em que o PS estivesse mais debilitado, de modo a conseguir a almejada trilogia “Maioria, Governo, Presidente”.

Com uma derrota tão estron­dosa, Cavaco Silva viu-se atin­gido pessoalmente, mas finge ignorar que foi o seu Governo e a sua política quem produziu o resultado obtido pelo PSD.

Resta saber como irá o eleitorado encarar a candidatura de Cavaco Silva; é bem verdade que o Povo tem memória curta e Cavaco Silva é uma figura carismática.

Quanto ao PS espera-se que não seja o mesmo que mostrou noutras alturas tanta incompe­tência; espera-se que A. Guterres seja capaz de personifi­car um novo PS, moldado pelos Estados Gerais, e sobretudo que o velho PS não venha ao de cima.

Estaremos atentos para ver e comentar.