quinta-feira, janeiro 16, 2014

Igreja Universal do Reino da Discórdia

Publicado no Jornal a 30/11/1995

Recentes acontecimentos em Matosinhos atraíram a atenção sobre a IURD.

Criada no Brasil, onde existe já há bastantes anos, causou – também por lá –polémica que chegasse; foi o caso obscuro e mal esclarecido do “Bispo” Edir Macedo e a continua suspeição generalizada sobre as finanças e o património da organização.

Como o “filão” continuava a dar, meteram ombros à travessia do Atlântico, de regresso à Pátria Mãe. Pensaram eles, lá com os seus botões, que não haveria obstáculos, devido à língua que é semelhante – muito mal tratada lá para aquelas bandas – devido aos braços abertos destes papalvos imbecilizados que acolhem (sem um mínimo de selecção) tudo quanto de lá vem. Se bem o pensaram, melhor o fizeram: com pézinhos de lã começaram pela Legião da Boa Vontade, tocando na corda sensível da solidariedade, coitadinhos dos pobrezinhos, etc. Nas publicações da dita Legião lá vinha a “inocente” publicidade a uma Igreja nova, ecuménica e abrangente.

Sem se dar por ela, lá chegou a IURD e foi um “ver se te avias”: tempo de antena na S1C, Estações de Rádio, salas de espectáculos; em pouco tempo, a presença da IURD em Portugal sentia-se com abundância.

A receita é simples: com artifícios da mais apurada técnica de manipulação de massas, cria-se um clima de exaltação que facilita a convicção do “milagre”; há um fenómeno de alucinação, provocado por técnicas que não andarão muito longe da hipnose e as pessoas ficam convencidíssimas da “cura” – desde os bicos de papagaio até às nódoas difíceis, passando pelas dores de cotovelo.

Para tornar a tarefa mais fácil, dirigem-se a pessoas de baixo nível cultural, enfraquecidas no corpo e/ou no espírito devido aos mais variados factores – doenças, situações de ruptura familiar, etc. – campo onde a sementeira não apresenta dificuldades e produz resultados magníficos.

Em resultado desta estratégia, facilmente se obtém a “dádiva espontânea” e aqui reside a primeira questão: parecem não restar dúvidas de que os responsáveis da IURD procuram o enriquecimento, causando com isso prejuízos a outrem; o meio utilizado para tal fim é a utilização das referidas técnicas astuciosas que induzem as pessoas numa convicção falsa, ou seja, configurando o tipo legal do crime de burla.

Mas a IURD florescia até que investiu sobre a terra nortenha, preparando-se para a conquista do Coliseu; nada menos do que a maior sala de espectáculos do Norte, que o Porto considera como sua, inalienável. Encontraram, então, a resistência popular, factor com o qual não contavam.

Quem conhece mais de perto o autor destes despautérios, que os leitores vão tendo a amabilidade de aturar, sabe da sua predilecção pelas terras do Sul, sendo, portanto, a pessoa mais insuspeita para tecer elogios ao Norte; todavia, a realidade é esta, foi preciso que essa gente cá chegasse para encontrar quem lhes fizesse frente.

Com a questão do Coliseu ainda pendente, surgiu o assunto de Matosinhos e foi o que se viu. Lá foi agitado o fantasma da Inquisição, intolerância religiosa, facciosismo e outros mimos. Entre muita asneira que se ouve em alturas destas, há algumas coisas acertadas e, desde logo, a afirmação de alguma responsabilidade que cabe à Igreja Católica.

Ninguém desconhece que a Igreja Católica viveu, longos anos, de costas voltadas para o Mundo e para os problemas do Homem, também é sabido que – principalmente desde o Concílio Vaticano II – ela se tem dedicado mais a vir ao encontro da realidade, aí intervindo das mais variadas formas; o que a Igreja Católica não aprova são procedimentos mais consentâneos com superstições e a utilização de artifícios para distrair incautos e ingénuos, criando neles falsas expectativas. A verdade é que outros cultos são mais facilmente assimiláveis, mais “populares”, relegando para segundo plano a verdadeira missão religiosa – amar a Deus e amar o próximo, no seguimento da Palavra revelada pelas Sagradas Escrituras.

A razão pela qual muita gente se afasta da religião, tem a ver com a incompreensão da essência da Boa Nova: os Judeus não aceitaram Cristo porque esperavam a libertação dos seus problemas terrenos em vez de esperarem a libertação do pecado e de todas as suas consequências. O mesmo acontece quando se espera de Deus a resolução dos problemas humanos: os homens procuram que seja feita a sua vontade, pouco se importando com a vontade Divina, se as coisas correm mal, zangam-se como uma criança birrenta em vez de seguir o exemplo Evangélico – faça-se em Mim segundo a Vossa Vontade.

Voltando à IURD, foi largamente condenada a reacção popular; se é certo que a violência é sempre censurável, não é menos certo o Direito a repelir aquilo que é nocivo; a isso se dedica o Estado, no combate ao crime e na perseguição que move às actividades ilícitas. À semelhança do que acontece noutras circunstâncias, então também aqui se podia dizer “coitadinhos dos criminosos que são vítimas da perseguição da polícia e da intolerância dos tribunais”.

Sobre a I. U. R. D. recaem as mais generalizadas suspeitas de actuação ilícita; é certo que as coisas são bem feitas, por profissionais, de modo que a dificuldade reside na prova. Quando rebentou a “guerra” do Coliseu, anunciou-se uma investigação levada a cabo pelo Ministério Público e pelo Ministério das Finanças; à partida, tal investigação estará a decorrer, embora não se tenha ouvido falar mais no assunto.

Todas as considerações que se têm tecido andam à volta da demasiadamente fácil penetração da I.U.R.D. em Portugal: Mal sabia Pedro Álvares Cabral, quando chegou à Terra de Santa Cruz, que, quase 500 anos mais tarde, o processo de colonização se inverteria; basta estar atento para ver os reflexos e as influências das telenovelas na Cultura tradicional Portuguesa. Sem estarmos a debruçar-nos muito sobre a razão da nossa indigência cultural não parecerá muito desacertado dizer-se que ela interessa aos Poderes, unia vez que é mais fácil dominar incultos. Verdadeira Política Cultural seria incentivar a divulgação informativa; a Cultura não tem de ser uma coisa soporífera, pode ser tratada de forma agradável, desde que entregue a quem saiba comunicar. O direito ao entretenimento e à distracção não obriga a que, nessa distracção, se procure imbecilizar as pessoas com veneno cultural.

Disse há tempos o responsável pela SIC, que aquela estação televisiva dava ao público aquilo que ele queria ver; em primeiro lugar, isso não é verdade; nos programas mais vistos, apenas uma telenovela brasileira ocupa posição de destaque e o número de telenovelas transmitido pelas 4 televisões já foi alvo de outros escritos. Mas mesmo que assim fosse, o argumento não colhe: se é de dar às pessoas tudo o que elas quiserem – mesmo o que lhes faça mal – então liberalize-se o consumo de estupefacientes, incentive-se o tabaco, apoie o suicídio, etc., etc.

Há que ter algum cuidado naquilo que se diz e na forma como se diz e procurando dar coisas agradáveis, dê-se o que for de boa qualidade, apto a formar e não a deformar.

Não foi o que aconteceu com a invasão “telenovelense” que nos apanhou desprevenidos, de boca aberta; para além de algumas coisas interessantes, trouxeram aos nossos hábitos comportamentos que nunca foram nossos.

No meio da miséria cultural e espiritual há, no entanto, um núcleo de resistência intocável, que é o sentimento popular de religiosidade muitas vezes bem diverso do que é cultivado pela Igreja. Quando esse sentimento é atingido por profanações de imagens e outros actos semelhantes a reacção é forte, apaixonada e decidida; a I.U.R.D. não contou com isso, pensando que eram “favas contadas”, tal como aconteceu com as novelas. Encontrou pela frente os herdeiros espirituais de Maria da Fonte, famosa personagem das terras de Lanhoso, também ela defensora de um sentimento popular de religiosidade.

Perguntava alguém, ao que nestas linhas se espraia, qual deve prevalecer: a Razão ou a Paixão, para logo de seguida responder que é a Paixão, pois ela tem sempre razão.


Viva o Norte!