Regionalização e referendo
Publicado
no Jornal a 21/06/1996
Ultimamente
tem-se falado muito de referendo a propósito da regionalização; nomeadamente o
PSD, pela voz de Rebelo de Sousa,
tem feito disso um autêntico “cavalo de batalha” chegando até a considerar a
hipótese de bloquear a revisão constitucional se o PS não lhe fizer a vontade.
Uma vez que o PS – partido maioritário – necessita do PSD para que se reuna a
maioria qualificada de 2/3, necessária à revisão constitucional, o PSD quer
fazer o seu preço e exige o referendo.
Sobre a
matéria da regionalização ainda há muitas dúvidas e poucas certezas; os
argumentos a favor resumem-se à redução da macrocefalia lisboeta em prol de uma
maior descentralização. Os argumentos contra referem-se à desorganização, à
assimetria de desenvolvimento, à falta de coesão cada um a puxar para ser lado,
sem união logo sem força.
Já neste
espaço foi confessada uma certa predilecção por Lisboa; é acima de tudo uma
questão de mentalidade mais aberta, de uma cidade verdadeiramente digna desse
nome, onde há tudo e nada falta. A mentalidade é característica muito própria e
não é susceptível de ser transportada; o que pode criar-se noutros sítios são
acontecimentos que só se verificam em Lisboa, nomeadamente de carácter cultural.
Cá pelo Norte – e particularmente no Porto, a chamada “segunda cidade” – é o
que se vê, ou melhor, o que não se vê. Só há pouco mais de uma meia dúzia de
anos começou a ver-se alguma coisa, especialmente desde a criação da Orquestra
do Porto que foi o despoletar de uma multiplicação de concertos; de tal modo
que em 1995 realizaram-se à volta do Porto quase tantos concertos como no país
inteiro. Caberá aqui uma referência de mera justiça ao Homem que está por
detrás de tudo, o Cónego Dr. António Ferreira
dos Santos, reverendíssimo Reitor da Igreja da Lapa.
Para além
disso todos bem sabemos como é, havendo uma frase lapidar que é bem
sintomática, Portugal é Lisboa e o resto
é paisagem, o que
convenhamos não é lá muito simpático especialmente para aqueles que, como nós,
vivem na paisagem.
Os nossos
políticos fazem gala de dizer hoje uma coisa e amanhã outra, como é o caso do
PSD que, aquando da aprovação do Tratado “Mais Triste”, achou que os cidadãos
nada tinham que “meter o nariz”, eles é que são os bons, é que sabem disto, nós
somos todos uma cambada de ignorantes. Agora, como lhes convém, o Referendo é a
melhor coisa que podia existir à face da terra. E o que é mais lamentável é que
as pessoas vão na cantiga e dizem lá com os seus botões, toda a gente faz assim. Com
isto quer-se significar que a incorrecção é “normal” e que a lisura de
procedimentos “já não se usa”.
A
tendência que temos vindo a verificar para uma cada vez maior permissividade,
aparece conjuntamente com a perda de valores, existindo entre ambos uma
recíproca relação de causa e efeito.
Mas... Íamo-nos
perdendo com outros assuntos, quando de início se anunciou que o tema era o da
regionalização e referendo.
Aqui há
dias, dois conhecidos autarcas, referindo-se à asfixiante burocracia, citavam o
mesmo exemplo: uma Câmara Municipal que queira contratar um jovem, durante dois
meses de Verão, para distribuir cabides numa piscina, precisa – para esse
efeito – que sejam praticados 40 (QUARENTA!) actos administrativos!!
Estes e
outros exemplos, que não caberiam neste Jornal, ainda que ele só a isso se
dedicasse durante uma boa dúzia de anos, são fortes argumentos para que se
distribua a capacidade de decisão, as finalidades a prosseguir e os meios e
poderes necessários para tanto.
Não
restam dúvidas sobre a inexistência de um consenso alargado sobre a
regionalização; também não restam dúvidas sobre a profunda modificação que ela
trará a Portugal, se for posta em prática; como ainda haverá decerto muito a
dizer, torna-se imperativa a promoção de iniciativas de informação em que sejam
amplamente divulgados os argumentos contra e a favor; só depois dessa
informação é que os cidadãos estarão em condições de tomar a sua decisão e
manifestá-la no referendo, exercendo assim os seus direitos de soberania.
Não
parece, todavia, ser esse o motivo que leva o PSD a fazer tanta guerra; o
verdadeiro problema é que o partido está profundamente dividido ao contrário do
que acontece com os outros partidos que se manifestam em bloco, ou contra ou a
favor. Essa a verdadeira razão que leva o PSD a inventar entraves para não ter
de ser confrontado com o triste espectáculo da sua profunda divisão interna.


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