quinta-feira, dezembro 11, 2014

Totobola



Publicado no Jornal a 19/07/1996

Surpreendeu-nos a todos a notícia da afectação das receitas do totobola ao pagamento das dívidas dos clubes.

No tempo em que todos éramos miúdos, a brincadeira preferida dos rapazes era a bola mas este vosso maçador nunca achou grande graça a andar a correr atrás de umas esfera e dar-lhe uns pontapés; isto para dizer que, morando em frente ao Estádio das Antas, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que se deu ao trabalho de atravessar a rua para ir ver um jogo. À medida que fomos crescendo, o cabelo branqueando (como diz a cantiga), começa-se a ouvir falar de futebol, tema inevitável num táxi, no café, no barbeiro e noutros sítios. É quase fatídico e por muito que se queira falar de outras coisas não há volta a dar. Assim se foi tomando contacto com esse mundo, não por vontade própria mas devido à massacrante divulgação que inunda mais de metade de todos os meios de comunicação, escrita, rádio e TV. Cedo fomos confrontados com as verbas astronómicas que giram nesse meio; aí as opiniões variam entre a revolta e a inveja, pouco se vendo quem diga que está bem.

Para todos os que vivem do seu trabalho, conseguindo pouco mais do que a sobrevivência à custa de muitos sacrifícios, o único pensamento é lamentar ter nascido sem jeito para dar dois chutos numa bola.

Há quem argumente que os jogadores têm um tempo de trabalho limitado pela idade e nesse tempo têm de ganhar para toda a vida: basta saber fazer as contas para verificar o disparate. Imagine-se, por exemplo, uma vida útil no futebol de 10 anos a ganhar 300 mil contos por ano – o ordenado de um “craque” – dá no total 3 milhões de contos na sua carreira profissional. Imagine-se agora um advogado que andou 5 anos a queimar as pestanas; ganha 6 mil contos por ano, durante 60 anos, dá 360 mil contos. Escusado será dizer que estes números estão muito longe da realidade; há jogadores que ganham ainda mais, que jogam durante quase 20 anos e depois de “reformados” ainda desenvolvem outros projectos que geram rendimentos. Por outro lado, tomaram muitos dos 12 mil advogados inscritos na Ordem ganhar 500 contos por mês e para trabalhar 60 anos é necessária uma longevidade invejável.

Noutros tempos dizia-se que Portugal era o país dos 3 FFF, Fátima, Futebol e Fado, querendo com isto criticar o aproveitamento político que se fazia destas realidades para alienar o povo – panem et circenses – o que prova que tais aproveitamentos já vêm de longe como a fama do Constantino. O certo é que noutros países, o futebol também move milhões, portanto não é só por cá; já muitos estudiosos da sociologia se têm debruçado sobre o fenómeno, o que faz arrastar multidões, levando-as a dar-lhe tal importância que sofrem do coração por causa disso e pode não haver dinheiro para comida, mas para ir ver o jogo há.

Aos “anormais” que gostam de pensar, como seres racionais que se presam de o ser, tudo isto causa estupefacção e se afigura como profundamente imoral, sintomas de um mundo que está perdido.

Não admiro que os clubes estejam endividados como estão, tendo em conta as verbas astronómicas que se desembolsam para terem ao seu serviço um jogador ou um treinador afamado. Já se sabe: quando há falta de dinheiro os primeiros a ficarem com o “calote” são a Segurança Social e os Impostos, ou seja, dívidas ao Estado – o mesmo é dizer, a todos nós. É com o produto dessas receitas que o Estado prossegue as suas finalidades de desenvolvimento e assistência. Importa dizer que muitas dessas dívidas resultam retenção que os clubes fizeram na fonte, não tendo enviado ao Estado o produto de tal retenção; os factos que acabam de descrever-se constituem crime, ou melhor só constituem se não estiver em causa um clube de futebol.

Ao invés do que acontece com as empresas, o Estado “esteve-se nas tintas” durante muito tempo e deixou acumular montantes absurdos; não satisfeito, ainda concedeu condições especiais de pagamento e agora lembrou-se de afectar a esse pagamento as receitas do totobola. Ou seja, vamos ser nós – os “anjinhos” que caírem na asneira de jogar no totobola – quem vai pagar as dívidas dos clubes. Pior ainda, esse dinheiro vai faltar à Santa Casa da Misericórdia que prossegue fins de assistência social.

Dizem eles que sem os clubes não haveria totobola, mas como diz o CDS, ou há moralidade ou comem todos; há empresas que lutam com enormes dificuldades, estando os empresários a sacrificar património pessoal para não verem morrer o que criaram e mesmo assim não conseguem sobreviver à crise; irão também receber a sua quota-parte das receitas do totobola?

Dizem eles que é a única forma de resolver o problema das dívidas dos clubes; então e as dívidas das outras pessoas que, ao que parece, são portugueses de segunda? Aqui há tempos o Dr. Ferraz da Costa, da CIP, dizia que não devem dar-se balões de oxigénio a empresas que não têm condições de sobreviver; estamos de acordo, mas também o mesmo serve para os clubes.

Estudava-se em Direito Fiscal que os impostos são universais, aplicando-se a todos; porque será que só os clubes beneficiam de condições especiais? Pagam tarde, mal e nunca e todos se desfazem em encontrar soluções para lhes resolver os problemas, os quais decorrem das verbas que se dão ao luxo de despender.

Os prejudicados somos todos que ficamos sem o apoio que o Estado poderia dar se recebesse tudo quanto lhe devem.

Dizem eles que esta é a única forma de resolver as dívidas dos clubes, coitadinhos, que ainda se dão ao luxo de fazer chantagem ameaçando com despedimentos e falta de apoio ao desporto.

Também aqui cabe perguntar se as outras pessoas que perdem o seu posto de trabalho são menos do que os funcionários dos clubes; cabe também perguntar por onde anda o apoio ao desporto juvenil, olhado como coisa de décima quinta categoria, comparativamente com as multimilionárias negociatas futebolescas.

É claro que tal medida nunca poderia ser aprovada; mesmo que o fosse seria facilmente “boicotável”: bastaria que os descontentes deixassem de apostar, mas o bom senso acabou por imperar e a polémica Lei não passou.

Naturalmente as ameaças já se foram sentindo: encerramento de modalidades amadoras e outras birras próprias de quem está habituado ao “quero, posso e mando”. Por outro lado, é bom que a lei tenha passado, por significar que alguns dos nossos políticos ainda não perderam de todo o juízo. Por outro lado, tinha a sua graça se tivesse passado: não será difícil de calcular que as apostas iriam diminuir – assim fosse fácil contrariar todas as leis disparatadas! – e então gostaríamos de saber qual seria a desculpa.

Há muita coisa que nos deixa pessimistas: olha-se para este mundo e vê-se que tudo está em desagregação; existe a convicção de que isto não pode continuar assim, tem de parar, mas onde será que vai parar?

Neste panorama desolador ainda vão surgindo algumas coisas a dar ânimo; como é o caso de ver que a juventude quer preservar certos valores. No fim-de-semana de 1 e 2 de Junho, as cidades de Braga e Guimarães assistiram à exibição de vários Ranchos Folclóricos, por ocasião do Baptizado do Príncipe da Beira; nesses ranchos via-se muita gente nova, com menos de 20 anos, entusiasmada pela conservação da Tradição; pode querer significar que os tempos futuros serão melhores especialmente se os Valores voltarem a ser seguidos.