Totobola
Publicado
no Jornal a 19/07/1996
Surpreendeu-nos
a todos a notícia da afectação das receitas do totobola ao pagamento das
dívidas dos clubes.
No tempo em
que todos éramos miúdos, a brincadeira preferida dos rapazes era a bola mas
este vosso maçador nunca achou grande graça a andar a correr atrás de umas
esfera e dar-lhe uns pontapés; isto para dizer que, morando em frente ao
Estádio das Antas, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que se deu ao
trabalho de atravessar a rua para ir ver um jogo. À medida que fomos crescendo,
o cabelo branqueando (como diz a cantiga), começa-se a ouvir falar de futebol,
tema inevitável num táxi, no café, no barbeiro e noutros sítios. É quase
fatídico e por muito que se queira falar de outras coisas não há volta a dar.
Assim se foi tomando contacto com esse mundo, não por vontade própria mas
devido à massacrante divulgação que inunda mais de metade de todos os meios de
comunicação, escrita, rádio e TV. Cedo fomos confrontados com as verbas
astronómicas que giram nesse meio; aí as opiniões variam entre a revolta e a
inveja, pouco se vendo quem diga que está bem.
Para todos
os que vivem do seu trabalho, conseguindo pouco mais do que a sobrevivência à
custa de muitos sacrifícios, o único pensamento é lamentar ter nascido sem
jeito para dar dois chutos numa bola.
Há quem
argumente que os jogadores têm um tempo de trabalho limitado pela idade e nesse
tempo têm de ganhar para toda a vida: basta saber fazer as contas para
verificar o disparate. Imagine-se, por exemplo, uma vida útil no futebol de 10
anos a ganhar 300 mil contos por ano – o ordenado de um “craque” – dá no total
3 milhões de contos na sua carreira profissional. Imagine-se agora um advogado
que andou 5 anos a queimar as pestanas; ganha 6 mil contos por ano, durante 60
anos, dá 360 mil contos. Escusado será dizer que estes números estão muito
longe da realidade; há jogadores que ganham ainda mais, que jogam durante quase
20 anos e depois de “reformados” ainda desenvolvem outros projectos que geram
rendimentos. Por outro lado, tomaram muitos dos 12 mil advogados inscritos na
Ordem ganhar 500 contos por mês e para trabalhar 60 anos é necessária uma
longevidade invejável.
Noutros
tempos dizia-se que Portugal era o país dos 3 FFF, Fátima, Futebol e Fado, querendo
com isto criticar o aproveitamento político que se fazia destas realidades para
alienar o povo – panem et circenses –
o que prova que tais aproveitamentos já vêm de longe como a fama do
Constantino. O certo é que noutros países, o futebol também move milhões,
portanto não é só por cá; já muitos estudiosos da sociologia se têm debruçado
sobre o fenómeno, o que faz arrastar multidões, levando-as a dar-lhe tal
importância que sofrem do coração por causa disso e pode não haver dinheiro
para comida, mas para ir ver o jogo há.
Aos
“anormais” que gostam de pensar, como seres racionais que se presam de o ser,
tudo isto causa estupefacção e se afigura como profundamente imoral, sintomas
de um mundo que está perdido.
Não admiro
que os clubes estejam endividados como estão, tendo em conta as verbas
astronómicas que se desembolsam para terem ao seu serviço um jogador ou um
treinador afamado. Já se sabe: quando há falta de dinheiro os primeiros a
ficarem com o “calote” são a Segurança Social e os Impostos, ou seja, dívidas
ao Estado – o mesmo é dizer, a todos nós. É com o produto dessas receitas que o
Estado prossegue as suas finalidades de desenvolvimento e assistência. Importa
dizer que muitas dessas dívidas resultam retenção que os clubes fizeram na
fonte, não tendo enviado ao Estado o produto de tal retenção; os factos que
acabam de descrever-se constituem crime, ou melhor só constituem se não estiver
em causa um clube de futebol.
Ao invés do
que acontece com as empresas, o Estado “esteve-se nas tintas” durante muito
tempo e deixou acumular montantes absurdos; não satisfeito, ainda concedeu
condições especiais de pagamento e agora lembrou-se de afectar a esse pagamento
as receitas do totobola. Ou seja, vamos ser nós – os “anjinhos” que caírem na
asneira de jogar no totobola – quem vai pagar as dívidas dos clubes. Pior
ainda, esse dinheiro vai faltar à Santa Casa da Misericórdia que prossegue fins
de assistência social.
Dizem eles
que sem os clubes não haveria totobola, mas como diz o CDS, ou há moralidade ou
comem todos; há empresas que lutam com enormes dificuldades, estando os
empresários a sacrificar património pessoal para não verem morrer o que criaram
e mesmo assim não conseguem sobreviver à crise; irão também receber a sua
quota-parte das receitas do totobola?
Dizem eles
que é a única forma de resolver o problema das dívidas dos clubes; então e as
dívidas das outras pessoas que, ao que parece, são portugueses de segunda? Aqui
há tempos o Dr. Ferraz da Costa,
da CIP, dizia que não devem dar-se balões de oxigénio a empresas que não têm
condições de sobreviver; estamos de acordo, mas também o mesmo serve para os
clubes.
Estudava-se
em Direito Fiscal que os impostos são universais, aplicando-se a todos; porque
será que só os clubes beneficiam de condições especiais? Pagam tarde, mal e
nunca e todos se desfazem em encontrar soluções para lhes resolver os
problemas, os quais decorrem das verbas que se dão ao luxo de despender.
Os prejudicados
somos todos que ficamos sem o apoio que o Estado poderia dar se recebesse tudo
quanto lhe devem.
Dizem eles
que esta é a única forma de resolver as dívidas dos clubes, coitadinhos, que
ainda se dão ao luxo de fazer chantagem ameaçando com despedimentos e falta de
apoio ao desporto.
Também aqui
cabe perguntar se as outras pessoas que perdem o seu posto de trabalho são
menos do que os funcionários dos clubes; cabe também perguntar por onde anda o
apoio ao desporto juvenil, olhado como coisa de décima quinta categoria,
comparativamente com as multimilionárias negociatas futebolescas.
É claro que
tal medida nunca poderia ser aprovada; mesmo que o fosse seria facilmente “boicotável”:
bastaria que os descontentes deixassem de apostar, mas o bom senso acabou por
imperar e a polémica Lei não passou.
Naturalmente
as ameaças já se foram sentindo: encerramento de modalidades amadoras e outras
birras próprias de quem está habituado ao “quero, posso e mando”. Por outro
lado, é bom que a lei tenha passado, por significar que alguns dos nossos
políticos ainda não perderam de todo o juízo. Por outro lado, tinha a sua graça
se tivesse passado: não será difícil de calcular que as apostas iriam diminuir –
assim fosse fácil contrariar todas as leis disparatadas! – e então gostaríamos
de saber qual seria a desculpa.
Há muita
coisa que nos deixa pessimistas: olha-se para este mundo e vê-se que tudo está
em desagregação; existe a convicção de que isto não pode continuar assim, tem
de parar, mas onde será que vai parar?
Neste panorama
desolador ainda vão surgindo algumas coisas a dar ânimo; como é o caso de ver
que a juventude quer preservar certos valores. No fim-de-semana de 1 e 2 de
Junho, as cidades de Braga e Guimarães assistiram à exibição de vários Ranchos
Folclóricos, por ocasião do Baptizado do Príncipe da Beira; nesses ranchos
via-se muita gente nova, com menos de 20 anos, entusiasmada pela conservação da
Tradição; pode querer significar que os tempos futuros serão melhores
especialmente se os Valores voltarem a ser seguidos.


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