Em defesa da vida
Está
convocado para Fevereiro um Referendo em que será perguntado aos portugueses se
concordam com a despenalização do aborto. Antes do mais um esclarecimento:
despenalizar significa isentar de pena; continua a tratar-se de facto ilícito
mas a sanção para o infractor deixa de ser uma pena – em sentido
jurídico-criminal. Ora, no caso em apreço não se trata de despenalizar o aborto
mas sim de o liberalizar, tornando-o um facto que deixa de ser ilícito.
Actualmente o aborto é crime: o Art. 140º
do Código Penal pune, com pena de prisão, quer a mulher grávida que queira
abortar, quer a pessoa que a fizer abortar. Em 1998 já foi realizado um
Referendo que pretendia legalizar o aborto em determinadas circunstâncias: tal
Referendo teve uma fraca participação já que a abstenção andou pelos 68% mas a
maioria de votos foi no sentido de não autorizar tal legalização pelo que o
aborto continuou a ser crime.
Já se sabe que o tema é polémico; já
se sabe também que, volta meia volta, a discussão regressa. Como cidadãos
responsáveis todos esperamos que a discussão seja esclarecedora de tal modo que
as pessoas fiquem bem cientes do que está em causa e espera-se igualmente uma
participação de votantes que não deixe margem para dúvidas.
Os argumentos a favor e contra já se
fazem ouvir e, por isso, limitarei este espaço a falar sobre certos pontos que
me parecem ainda pouco esclarecidos. Assim, há um argumento muito utilizado,
segundo o qual a mulher deve poder decidir sobre o seu corpo. Este argumento
não colhe. A verdade é, ao praticar o aborto, a mulher está sobretudo a decidir
acerca de um corpo de outrem que se forma dentro de si. A palavra “corpo” é
aqui usada deliberadamente para evitar discussões de índole filosófica e
psico-social sobre o conceito de “pessoa”; juridicamente, a personalidade só se
adquire a partir do nascimento completo e com vida. Todavia, à luz da biologia,
a vida humana inicia-se aquando da concepção, da fecundação do óvulo; aí se
inicia um processo biológico tendente à formação de um ser humano novo.
Outro argumento reside na afirmação
segundo a qual o aborto é uma realidade incontornável, sempre existiu e sempre
existirá e, nessa conformidade, será melhor que ele seja praticado em
estabelecimentos dotados dos meios técnicos e humanos adequados do que ser
feito de forma clandestina e sem meios. Este argumento, da inevitabilidade
também deve ser interpretado à luz do seu contexto. Há muitas outras realidades
incontornáveis: pensemos, por exemplo, na tóxico-dependência: existe, é uma realidade,
abunda; será que, só por isso, se devia liberalizar o consumo?!
Finalmente, outro argumento. O aborto
é livre em muitos países, desde logo os ditos “desenvolvidos”. O lado são da
sociedade não se confunde – por não coincidir – com a maioria. Por isso não
podemos agir de acordo com a maioria; se a maioria decidisse um reconhecido
disparate será que o adoptaríamos só porque “toda a gente faz”?
Em meu entender estes pontos,
invocados a favor do “sim” ao aborto restam sem contraposição e, por isso, a
eles respondo. Como facilmente se deduz votarei “não”; sou a favor da vida, sou
contra a morte. Lamento as mulheres que se vêm na contingência de praticar um
aborto. Asseguro-lhes que podem contar com toda a minha solidariedade mas
também com a minha defesa incondicional da vida que se inicia na concepção.


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