Tal como outras
pessoas, tenho andado atento ao que se passa e às recentes agressões que se
anunciam para a nossa magra carteira.
Nesta altura do
campeonato, poucos dos que me aturam terão dúvidas acerca do meu
posicionamento; aqui fica em letra de forma, a minha opção é pela democracia
cristã. Acredito no funcionamento de uma economia de mercado mas não sou
liberal; já Keines ditou o fim do laisser
faire e eu concordo; é função do estado não se imiscuir em tudo mas é
igualmente sua função intervir para corrigir injustiças.
Estamos mal, toda
a gente sabe. Talvez estejamos a precisar de uma revolução mas que não seja uma
revolução apenas “contra” algo, uma revolução em que se defina o que se
pretende melhorar. Tornar Portugal um país produtivo, criando riqueza, onde a
justiça puna eficazmente todo o género de infractores.
Temos ouvido
algumas vozes manifestando-se contra as medidas do actual governo de Passos Coelho, nomeadamente por parte de
pessoas com responsabilidades na Igreja. Tem sido muito badalada uma entrevista
dada por D. Januário Torgal Ferreira,
titular da Diocese Castrense. O comentário que se segue, procurará responder a
algumas dessas inquietações mas será necessário que se façam algumas
considerações prévias.
Desde 1974 temos
tido maus governos, excepção feita a Francisco
Sá Carneiro, Deus o tenha. Uns muito maus, outros menos maus; os
sucessivos governos socialistas, com ou sem coligação, com Soares, Guterres ou Sócrates, puseram Portugal num estado
miserável. Falando apenas na economia, destruíram-se aparelhos produtivos,
pagou-se a muita gente para deixar de produzir e só se ouve falar em buracos e
derrapagens financeiras. Durante uma década ocorreu um interregno nesta
sucessão de desgraças, foi o tempo dos governos de Cavaco Silva, também ele não isento de críticas. Houve
desenvolvimento económico mas não se pensou nas pessoas, de cultura nem se
ouviu falar; fizeram-se muitas estradas mas quem por elas circulava eram
autómatos.
Vieram os governos
de Guterres, voltou o socialismo
no seu melhor – ou no seu pior... desde 1995 tem sido esse o nosso fado, onde
nem faltou a pequena distracção Durão
Barroso/Santana Lopes – para esquecer, em definitivo. Vive agora no luxo
parisiense, às nossas custas, o mais recente obreiro da bancarrota em que nos
encontramos.
O actual governo,
desde que tomou posse, tem transmitido uma imagem de querer pegar o touro pelos
cornos – passe a vulgaridade da expressão em homenagem à sua força sugestiva.
Por todo o lado onde mexem, descobrem desgraça, cada vez mais desgraça, a
justificar novas medidas de intervenção. Serão tais medidas isentas de crítica?
Para responder a
esta pergunta, passarei a referir-me à tal entrevista de D. Januário; conheci-o pessoalmente no
Porto, já lá vão mais de duas décadas, era ainda o Padre Doutor Torgal Ferreira; soube da sua ordenação
episcopal que causou alguma polémica – dizia-se na altura que outros a
mereceriam com mais propriedade. Criou-se a Diocese Castrense e, desde então,
de vez em quando, lá vem ele dizer coisas. Já aqui citei o nome dele, há um bom
par de anos e é difícil não discordar das coisas que diz, quer elas se refiram
a assuntos religiosos, quer a outros. D. Januário,
na tal entrevista, refere falta de informação: o governo deveria explicar a que
se devem estes “apertos de cinto”. Eu não ignoro a que se devem; já atrás o disse,
aos sucessivos governos do Partido Socialista. Mas acredito que haja quem
precise de mais explicações. Nesse aspecto estamos de acordo. Refere que,
perante as medidas impostas pela troika, não devemos estar de joelhos, podemos
discutir, propor alternativas; aí, já não tenho tanta certeza; renegociar
dívida? Talvez venha a ser necessário mas é preciso que os outros aceitem (não
estou a ver que seja possível...). Estaremos a percorrer o caminho da Grécia?
Não me parece; principalmente porque não temos governo socialista e isso faz
toda a diferença.
É natural que a
Igreja esteja apreensiva com o esmagamento dos mais desfavorecidos; temos
ouvido sucessivos relatos de ruptura nas instituições de solidariedade social;
cada vez há mais gente necessitada e ainda a procissão vai no adro. É sempre
bom ouvir a voz da Igreja e há canais próprios para esse fim: a Conferência
Episcopal tem-se mostrado atenta e activa.
Obviamente, quem
tem mais, deve pagar mais; digo-o claramente, sem populismo e sem preconceitos
esquerdistas contra os “ricos”; mas a verdade é que quem tem dinheiro, quem
vive com desafogo, pouco sente destes apertos. Grandes fortunas, patrimónios a
perder de vista, deviam ser mais eficazmente chamados a desempenhar uma função
social e solidária; o problema é que isso é difícil, há muito por onde fugir e
é mais fácil cair em cima de quem trabalha por contra de outrem pois esses não
têm por onde fugir.
O governo não
actua de tal forma que se possa dizer exemplar, é verdade. Ainda terá bastante
a corrigir, sem dúvida. Mas está a mostrar-se eficaz. Às vezes é duro, quase
cruel, mas não há grande alternativa, excepção feita a outro género de
tributação sobre quem tem mais posses.
É importante que
se trilhe outro caminho; estamos já na queda para o abismo e terá de travar-se
tal queda ou seremos de facto uma nova Grécia, ou pior ainda, teremos aquilo a
que os profetas da desgraça chamam o fim de Portugal. Mas é também muito
importante que se perceba de uma vez por todas que os responsáveis não podem
ficar impunes; quem nos trouxe a este triste estado em que estamos ou a que
chegamos – para parafrasear o saudoso Salgueiro
Maia – deve ser responsabilizado e punido com rigor para que alguém
possa voltar a acreditar na Justiça.