quinta-feira, novembro 05, 2015

Lições das eleições



Ontem lá fui fazer a cruzinha nos três papéis, tratava-se de eleições locais; se fossem eleições nacionais, não sei se lá iria, aliás, estou com vontade de não ir. O sistema partidocrático mostra-se esgotado, sem oferecer alternativas. Poderia votar em branco mas cada voto que entra na urna dá € 3,00 aos partidos e eles nada me dão em troca dos meus € 3,00; aliás, dão: dão má governação.

Mas ontem fui; no final da tarde – como é meu hábito – colei-me à TV para ver os resultados e ouvir os comentários. Começando cá pela terra: Ricardo Rio ganhou a Câmara de Braga fechando um ciclo de 30 e tantos anos; só Mesquita Machado o impediu de ganhar anteriormente. Espero que Braga melhore. A TV ignorou um resultado que era significativo em termos nacionais, outros valores mais altos se alevantaram...

No Porto ganhou Rui Moreira; morei no Porto até 2005, se ainda lá votasse seria este o meu candidato. Uma candidatura sem partidos, ou melhor com um único partido: o Porto. Meneses, expatriado de Gaia, ficou abaixo de Pizarro. Foi uma derrota mais do que merecida; nunca gostei de Meneses, continuo a não gostar, fez algumas coisas em Gaia mas deixou um rasto de dívidas. Foi inegavelmente uma péssima escolha, ninguém gostou do faz-de-conta, não posso continuar aqui mas vou para o vizinho. A actual limitação de mandatos não é isenta de críticas: na verdade a tão apregoada soberania popular fica limitada; se o eleitorado quer o mesmo durante anos a fio, quem lhe deve restringir tal direito? Enfim, ficará para outra ocasião...

A verdade é que as pessoas não gostaram dessas manobras, tanto no Porto como em Lisboa. Ganhou António Costa, como se previa; estou em crer que nesse caso – embora a escolha de Seara não tenha sido feliz pelas razões que atrás disse – fosse quem fosse o candidato perderia para Costa. Costa irá assumir a presidência, durante uns tempos e dela sairá para outros voos, é mais do que certo; eu bem ouvi o que ele disse ontem e também o que ele não disse...

Em termos nacionais, o PSD – sozinho ou em coligação – perdeu em número de votos mas acabou por não ficar muito mal na fotografia dadas as vitórias em Braga e na Guarda. O PS foi o partido mais votado mas com Seguro à frente será sempre a mesma mediocridade. O CDS reforçou a sua posição como partido, novo fôlego para Portas.

Façam-me um favor, não venham cantar louvores aos partidos; os partidos são um mal necessário no funcionamento de uma democracia mas há outras formas de participar na vida pública e sobretudo é possível que haja rigor, transparência e responsabilidade na administração de um país a que ainda não me desabituei de chamar Pátria.

Reviravoltas



Reverti unde veneris quid grave est? (Séneca, De Tranquillitate Animi 11.4) Que há de difícil (ou grave) voltar ao lugar de onde se veio?

Quem me acompanha no facebook viu alguns desabafos nos últimos dias, a propósito da crise governamental. Disso mesmo não passaram, desabafos. Deixei passar alguns dias, fui vendo e ouvindo e agora vai uma reflexão mais a frio.

Recapitulando: Gaspar demitiu-se; já tardava. Já andava a manifestar esse desejo há muito tempo, era contestado dentro do Governo e da coligação, pelas asneiras que fez e ele próprio reconheceu erros.

Foi substítuido por uma solução “mais do mesmo”; Maria Luís seria a continuação do “gasparismo” sem Gaspar, digo eu que seriam os mesmos defeitos e nenhuma das virtudes. O CDS – e Portas, em particular – era o rosto da contestação.

Como consequência, Portas demitiu-se. Também já andava a ameaçar, como se foi ouvindo e compreende-se. Uma coligação implica cedências mútuas mas Passos Coelho nem ouvia – ou fingia... É feitio dele, dizem; talvez seja mas um Primeiro-Ministro tem deveres acrescidos e, ciente de uma sua tendência natural, deve dominá-la. Tem agido com incompetência, subserviente ao mando da Troika. A Troika está a falhar, a Europa está a falhar, como já tem sido dito. A voz discordante do CDS dentro da coligação era letra morta.

Entretanto, a Europa reconheceu que a austeridade não é solução, Merkel está com as eleições à porta, seria agora ou nunca. Estrategicamente, este foi o melhor momento para arriscar uma posição de força. Portas disse que nada estava a fazer no Governo – em linguagem vulgar, ninguém lhe ligava. Assim, não! A sua tomada de posição foi individual, sem consultar o seu partido, um risco considerável mas que se revelou frutífero. O CDS uniu-se à sua volta, Cavaco interveio e Portas sai reforçado. Saiu e entrou, ou nem chegou a sair, será censurável? O próprio Sá Carneiro fazia isto: ou é como eu quero ou passem muito bem sem mim. Se isto acabasse mesmo com a saída de Portas, teria perdido o poder mas teria ganho em verticalidade. Todavia, ganhou um protagonismo enorme.

Por tudo isto, a forma como agiu é estrategicamente correcta, do seu ponto de vista e do ponto de vista do CDS.

E o país? Levou com alguma agitação, levou com uma sacudidela dos mercados, nada de grave. Que nos trará o futuro? Não é difícil de prever “guerras” entre Portas e Maria Luís, que (mais provavelmente) acabarão com a saída desta; receita ensaiada, Portas deitará as garras de fora. Que novidades trará esta reviravolta ao País, à sua economia e finanças? Essa é a grande incógnita. A Esperança (cada vez mais dimuída) é que seja dada outra orientação menos austeritária. A ver vamos, como diz o cego...

Adversários e inimigos



Desde há uns dias temos ouvido muito uma música: “Grândola, vila morena”. Toda a gente sabe que é um dos símbolos do 25 de Abril. O governo actual tem sofrido contestação, sendo certo que os protestos têm revestido diversas formas. Ultimamente tem-se optado por receber ou interromper membros do governo, com aquela canção.

Uma das características do regime democrático em que – segundo se diz… – vivemos é a liberdade de expressão. Quer isto dizer que, perante um acto ou uma palavra, pode concordar-se ou discordar-se e as pessoas devem poder exprimir livremente a sua opinião. A discordância assume frequentemente a forma de protesto. De um lado estarão os apoiantes, do outro estarão os adversários. O problema começa quando os adversários se transformam em inimigos, quando estamos contra as pessoas em vez de estarmos contra as ideias e acções.

Temos visto muitas formas de protesto, umas mais agrestes do que outras; começo por dizer que não vale tudo. Se uma actuação merece qualquer censura, não será pelo facto de ser feita em protesto – por muito legítimo que este seja – que deixará de merecer a tal censura.

No caso em apreço: o protesto consistiu em interromper alguns ministros ou, até, nem os deixar falar. Parece-me falta de respeito; se não houvesse outra forma de protestar, o caso seria diferente, todavia, existem outras formas, greves, manifestações, etc. As pessoas têm muitas formas de fazer ouvir a sua voz. Pode até dizer-se que o governo não se tem dado ao respeito mas os erros alheios não justificam os nossos. Eu, como não gosto de ser interrompido, ouço sempre atentamente quem me fala. Como é óbvio, gosto que procedam comigo da mesma forma.

Por outro lado, um protesto é sempre uma voz que se levanta “contra” e, salvo raríssimas excepções, vem desacompanhado de propostas alternativas. É fácil dizer “isto está mal” mas é mais difícil dizer “isto deveria ser assim”. De qualquer modo, não se pode ignorar esta movimentação, este descontentamento generalizado, que parte da sociedade civil e passa ao lado dos partidos políticos.

Já aqui me manifestei contra a partidocracia; as formas de intervir na sociedade são muitas e os partidos não respondem a muitas das inquietações da sociedade. No actual cenário português, o que vemos? Um governo desastroso e uma oposição praticamente inexistente. O governo farta-se de fazer asneiras, está a pôr o país de cangalhas sem que – diga-se em abono da verdade – tenha muito por onde fugir à famigerada troika e ao autoritarismo Merkeliano. E o principal partido da oposição? Ressente-se ainda da pesada herança de Sócrates que nos trouxe ao estado em que estamos; para suceder a tal personagem, veio um “não personagem”. Ou seja, nos dois principais partidos portugueses, poucas pessoas se reflectem. Como resultado surgem os movimentos de independentes de quem não se revê em qualquer dos partidos.

Como fica claro pelos argumentos atrás apresentados o objectivo é derrubar o governo; será mesmo? Ou apenas criar instabilidade? Apenas derrubar por derrubar, sem propor uma alternativa, não oferece credibilidade. E, por outro lado, se o objectivo é mesmo esse, basta convocar uma greve geral, sem termo definido, que apenas terminaria quando o governo caísse.

É desta que eu fujo...



Quem se deu ao trabalho de ler a publicação anterior, viu-me defender o actual governo de Passos Coelho. Hoje venho dizer, claramente, este governo é mau.

Já disse e repito, a minha opção política é a democracia cristã; por isso tenho votado (mais por hábito do que por convicção…) no partido que foi o CDS. Assim fiz nas últimas eleições legislativas, sabendo que eram fortíssimas as probabilidades de que viesse a haver um governo de coligação com o PSD; acreditava nas potencialidades de tal governo e nele acreditei até à passada Sexta, dia 7 de Setembro. Ouvi a comunicação de Passos Coelho, ouvi os comentários que se lhe seguiram.

Um Chefe de Governo é uma pessoa como outra qualquer, um ser humano sujeito a errar; todavia, sobre ele recaem especiais deveres acrescidos que diferem do vulgar cidadão. Foi precipitado? Foi mal preparado? No meu fraco entender, só tenho uma palavra para classificar: foi INCOMPETENTE. É a consequência lógica que deriva necessariamente do desastre que foi aquela comunicação.

Há alternativa? Deixem-me rir para não chorar! Seguro y sus muchachos? Já se esqueceram do que fez o PS? Já se esqueceram de que nos encontramos nesta triste situação por causa deles?

Solução? Nem se vislumbra… A classe política, salvo raríssimas e honrosas excepções de algumas pessoas credíveis, é uma desgraça. Falta coragem, sobretudo. Coragem para acabar de vez com as PPP, coragem para cortar drasticamente na despesa, pois não há onde ir buscar mais receita, o bolso já está esmagado. As grandes fortunas permanecem intocadas, em nada sentem esta brutal austeridade que continua sem fim à vista.

Os valores por que deve reger-se a coisa pública são inexistentes, volta a contestação, mesmo dentro dos partidos da coligação. Tornar Portugal um país produtivo, onde a justiça puna eficazmente todo o género de infractores. Criar riqueza, deixar funcionar a sociedade civil, sempre com atenção ao que se vai passando e pedindo ao Estado a intervenção necessária para corrigir o funcionamento do mercado, será assim tão difícil? Para o Estado vão só prejuízos? Está tudo doido…

Estou triste; sou português e gosto de o ser mas acabo por me envergonhar disto tudo.

Teremos futuro?



Tal como outras pessoas, tenho andado atento ao que se passa e às recentes agressões que se anunciam para a nossa magra carteira.
Nesta altura do campeonato, poucos dos que me aturam terão dúvidas acerca do meu posicionamento; aqui fica em letra de forma, a minha opção é pela democracia cristã. Acredito no funcionamento de uma economia de mercado mas não sou liberal; já Keines ditou o fim do laisser faire e eu concordo; é função do estado não se imiscuir em tudo mas é igualmente sua função intervir para corrigir injustiças.
Estamos mal, toda a gente sabe. Talvez estejamos a precisar de uma revolução mas que não seja uma revolução apenas “contra” algo, uma revolução em que se defina o que se pretende melhorar. Tornar Portugal um país produtivo, criando riqueza, onde a justiça puna eficazmente todo o género de infractores.
Temos ouvido algumas vozes manifestando-se contra as medidas do actual governo de Passos Coelho, nomeadamente por parte de pessoas com responsabilidades na Igreja. Tem sido muito badalada uma entrevista dada por D. Januário Torgal Ferreira, titular da Diocese Castrense. O comentário que se segue, procurará responder a algumas dessas inquietações mas será necessário que se façam algumas considerações prévias.
Desde 1974 temos tido maus governos, excepção feita a Francisco Sá Carneiro, Deus o tenha. Uns muito maus, outros menos maus; os sucessivos governos socialistas, com ou sem coligação, com Soares, Guterres ou Sócrates, puseram Portugal num estado miserável. Falando apenas na economia, destruíram-se aparelhos produtivos, pagou-se a muita gente para deixar de produzir e só se ouve falar em buracos e derrapagens financeiras. Durante uma década ocorreu um interregno nesta sucessão de desgraças, foi o tempo dos governos de Cavaco Silva, também ele não isento de críticas. Houve desenvolvimento económico mas não se pensou nas pessoas, de cultura nem se ouviu falar; fizeram-se muitas estradas mas quem por elas circulava eram autómatos.
Vieram os governos de Guterres, voltou o socialismo no seu melhor – ou no seu pior... desde 1995 tem sido esse o nosso fado, onde nem faltou a pequena distracção Durão Barroso/Santana Lopes – para esquecer, em definitivo. Vive agora no luxo parisiense, às nossas custas, o mais recente obreiro da bancarrota em que nos encontramos.
O actual governo, desde que tomou posse, tem transmitido uma imagem de querer pegar o touro pelos cornos – passe a vulgaridade da expressão em homenagem à sua força sugestiva. Por todo o lado onde mexem, descobrem desgraça, cada vez mais desgraça, a justificar novas medidas de intervenção. Serão tais medidas isentas de crítica?
Para responder a esta pergunta, passarei a referir-me à tal entrevista de D. Januário; conheci-o pessoalmente no Porto, já lá vão mais de duas décadas, era ainda o Padre Doutor Torgal Ferreira; soube da sua ordenação episcopal que causou alguma polémica – dizia-se na altura que outros a mereceriam com mais propriedade. Criou-se a Diocese Castrense e, desde então, de vez em quando, lá vem ele dizer coisas. Já aqui citei o nome dele, há um bom par de anos e é difícil não discordar das coisas que diz, quer elas se refiram a assuntos religiosos, quer a outros. D. Januário, na tal entrevista, refere falta de informação: o governo deveria explicar a que se devem estes “apertos de cinto”. Eu não ignoro a que se devem; já atrás o disse, aos sucessivos governos do Partido Socialista. Mas acredito que haja quem precise de mais explicações. Nesse aspecto estamos de acordo. Refere que, perante as medidas impostas pela troika, não devemos estar de joelhos, podemos discutir, propor alternativas; aí, já não tenho tanta certeza; renegociar dívida? Talvez venha a ser necessário mas é preciso que os outros aceitem (não estou a ver que seja possível...). Estaremos a percorrer o caminho da Grécia? Não me parece; principalmente porque não temos governo socialista e isso faz toda a diferença.
É natural que a Igreja esteja apreensiva com o esmagamento dos mais desfavorecidos; temos ouvido sucessivos relatos de ruptura nas instituições de solidariedade social; cada vez há mais gente necessitada e ainda a procissão vai no adro. É sempre bom ouvir a voz da Igreja e há canais próprios para esse fim: a Conferência Episcopal tem-se mostrado atenta e activa.
Obviamente, quem tem mais, deve pagar mais; digo-o claramente, sem populismo e sem preconceitos esquerdistas contra os “ricos”; mas a verdade é que quem tem dinheiro, quem vive com desafogo, pouco sente destes apertos. Grandes fortunas, patrimónios a perder de vista, deviam ser mais eficazmente chamados a desempenhar uma função social e solidária; o problema é que isso é difícil, há muito por onde fugir e é mais fácil cair em cima de quem trabalha por contra de outrem pois esses não têm por onde fugir.
O governo não actua de tal forma que se possa dizer exemplar, é verdade. Ainda terá bastante a corrigir, sem dúvida. Mas está a mostrar-se eficaz. Às vezes é duro, quase cruel, mas não há grande alternativa, excepção feita a outro género de tributação sobre quem tem mais posses.
É importante que se trilhe outro caminho; estamos já na queda para o abismo e terá de travar-se tal queda ou seremos de facto uma nova Grécia, ou pior ainda, teremos aquilo a que os profetas da desgraça chamam o fim de Portugal. Mas é também muito importante que se perceba de uma vez por todas que os responsáveis não podem ficar impunes; quem nos trouxe a este triste estado em que estamos ou a que chegamos – para parafrasear o saudoso Salgueiro Maia – deve ser responsabilizado e punido com rigor para que alguém possa voltar a acreditar na Justiça.