A propósito do "Poema para Galileu" de António Gedeão
Publicado no Jornal em princípios de 1997
Numa
pequena manada de gaivotas, todos os componentes respeitavam os hábitos de
antanho, ditados pelo instinto e pela Mãe Natureza: procurar alimento, construir
ninhos para responder ao apelo maior da conservação da espécie; dir-se-ia que,
movidos por força estranha, faziam o que nós – os racionais – tentamos
interpretar e explicar.
Um
dia nasceu uma outra gaivota, mais uma, saída de um ovo igual a tantos outros.
Como todas aprendeu a voar mas cedo começou a mostrar que era diferente, que
não era mais uma na manada; essa diferença manifestava-se no seu desejo de
voar. Não se contentava – como as outras – com pequenos voos em busca de
alimento: queria ir mais longe, voar, voar sempre.
– Para
quê? – perguntariam algumas gaivotas em ar de reprovação, umas, ou de
troça, outras – não te basta o que tens,
não te sentes bem aqui connosco?
– Sinto – responderia a “atrevida” – mas quero saber o que há para além desta rotina; pode até nem haver,
todavia, preciso de saber se há e (caso haja) o que há.
Numa
explicação sucinta, aqui ficou a história de Fernão Capelo Gaivota, normalmente
utilizada na Introdução à Filosofia para iniciar a reflexão filosófica.
Nos
Lusíadas, Camões introduziu o Velho do Restelo. Quando os navegadores
portugueses partiam em busca do mar desconhecido, ele reprovava tal intuito.
– Não vão – diria – não sabem o
que os espera, fiquem na terra que conhecem. Mas eles foram e deram novos mundos
ao Mundo.
Dois
exemplos de inconformismo e tantos mais que poderiam ser aqui trazidos. Não há
dúvida de que o ser humano é um mistério: desde logo pensa e quer conhecer;
busca, por vezes sabendo que nada vai encontrar. Sente-se apertado dentro da sua
muralha, da rotina que o sufoca.
Outras
vezes, comporta-se exactamente ao contrário: é comodista e instalado,
censurando ambições alheias. É o medo do desconhecido, é o não saber se vai
“ferir-se” quanto mais não seja, no seu orgulho.
Assim
foi o caso de Galileu: ousou desafiar os instalados, procurou novos caminhos
para além daqueles que lhe haviam sido ensinados. Tempos bem difíceis em que a
Igreja se defendia à custa da repressão, por medo; medo de que as suas certezas
fossem postas em causa, medo de que alguém ousasse ser livre.
Se
eu fosse repórter, faria uma entrevista a Galileu, perguntar-lhe-ia se
realmente, no seu íntimo, o tinham convencido. Perguntaria, depois, a cada um
dos “doutores” se estavam convencidos da honestidade do “arrependido”.
Se
eu fosse jornalista, diria que, mais uma vez, triunfou o obscurantismo,
venceram os instalados.
Se
eu fosse juiz diria: tu és culpado! Tão
culpado como Judas! Mas eu hei-de seguir-te os passos, até ao fim da minha
vida!
Se
eu fosse arguido diria: não sei por onde
vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.
Mas
não sou um deles; reduzo-me à minha insignificância, envergonhado por não
desafiar tudo e todos, seguro das minhas certezas, tecendo considerações sobre
histórias que outros contaram.
Já
lá vão uns anos em que me deu para escrever algo que se relaciona com esta
temática da estabilidade versus procura;
será com isso que terminarei.
Não
quereria explicar o inexplicável, apenas me limito a constatar factos.
Suponhamos
que um acidentado perde a consciência e, ao recuperá-la, se encontra em sítio
que desconhece; a sua primeira pergunta será “o que é isto”? Com tal pergunta,
procura englobar tudo, saber o que lhe aconteceu, onde está, como foi ali
parar, ou seja, procura conhecer. Ainda, por outras palavras, não se dá
por satisfeito com aquilo que apreende através dos sentidos. Não fica
atavicamente preso ao que é, ao que está. Por outro lado há os adeptos do “terreno
firme”, pensa duas vezes antes de agir.
Como
em tudo, também aqui in médio virtus. A
ambição desmedida, a eterna insatisfação fazem com que se cometam erros, muitas
vezes irremediáveis, embora seja a errar que se aprende.
A
crónica já vai longa; em jeito de homenagem a Galileu e a todos quantos tiveram
a ousadia de ser pioneiros, aqui fica “isto”. Chamem-lhe o que quiserem, poesia
ou prosa; eu chamei-lhe
A MURALHA
Construi em vota de mim uma muralha.
Quis proteger-me dos perigos e evitá-los
Mal sabia que dentro dela há perigos bem
maiores!
Estava farto dos espinhos que me feriam a pele.
Cedo me cansei desta muralha.
Voltei às lutas e novamente senti a frustração.
E refugiei-me de novo.
Sinto-me claustrófobo aqui!
Quero ver outras caras e sentir diferente
Desta moldura cinzenta.
Saí.

