segunda-feira, maio 18, 2015

Condutores e acidentes na estrada

Publicado no Jornal a 03/11/2000

Tem-se falado muito numa nova medida repressiva, a aplicar aos infractores do Código da Estrada, que consistirá na apreensão do veículo. É, sem dúvida, uma medida violenta, muito discutível, mas que os nossos queridos governantes justificam com uma assustadora sinistralidade verificada nas vias rodoviárias.

Não há sombra de dúvida de que as estatísticas sobre o número de acidentes, de feridos e de mortos são de fazer pensar e deixam apreensiva qualquer pessoa dotada do mais elementar bom senso.

Em 1994, após cerca de 40 anos de vigência, foi revisto o Código da Estrada; assisti nessa altura a uma conferência pelo autor do projecto, o meu ilustre colega Professor Doutor Germano Marques da Silva. Dessa conferência recordo a parte em que aquele jurista disse que o problema da sinistralidade nas estradas se devia, fundamentalmente, a um problema de educação: toda a gente sabe que o amarelo não é sinal para acelerar mas acelera, toda gente sabe que o limite máximo de velocidade nas auto-estradas é de 120 km/h mas quase ninguém o respeita, não há, portanto, problemas de informação. E, das duas uma, ou esperamos 50 anos até que as pessoas estejam educadas ou então actua-se de forma repressiva, penalizando o infractor na sua carteira.

Efectivamente, o grande problema é o da falta de educação: ninguém conduz pela direita, ninguém dá prioridade aos que a têm, eu sou o melhor do mundo, até consigo meter-me à frente, e por aí fora. É, afinal, mais um produto da sociedade de consumo, do “deus” dinheiro, da competitividade como princípio, meio e fim, fazendo tábua rasa das Pessoas, dos Seres Humanos e daquilo que os caracteriza como tais, isto é, da racionalidade. No que respeita à educação, a tendência, infelizmente, será para piorar: nas famílias cultiva-se cada vez mais o autómato estupidificado por doses de Big Brother à fartazana, o espírito crítico e a capacidade de discernir são cada vez mais ignorados e desincentivados; nas escolas nem é bom falar, sob pena de se tornar interminável este espaço de intervenção cívica. Resta, falar, sob pena de se tornar interminável este espaço de intervenção cívica. Resta, assim, como em outros países já se compreendeu, a repressão. Quem viajar por essas estradas fora, tem oportunidade de assistir a uma coisa curiosa: o condutor, ao passar a fronteira, para nuestros hermanos altera radicalmente a sua condução, para melhor. Porquê? A resposta é simples: é que a polícia lá não é para graças, há mão pesada e aplica-se inflexivelmente a legislação. Do lado de cá da fronteira são raras – e honrosas… – as excepções à regra da corrupção: o condutor estranha aquele agente da autoridade que não lhe estende a mão à espera da esmola – perdão, da “gratificação” – e, por sua vez, o agente da autoridade estranha aquele condutor que não mete uma notita na carta de condução.

No que respeita à preparação dos condutores, estamos conversados. Começa pela carta de condução “comprada” e continua num rosário de amarguras: os carros das escolas – em ensino ou em exame – inundam as artérias citadinas, já de si fortemente congestionadas, a velocidades de fazer inveja a qualquer lesma, o examinador também recebe o seu “presente” e dá-se uma carta de condução ignorando criminosamente que se está a entregar uma arma mortífera. Os exames não verificam a efectiva aptidão daquela pessoa concreta, a sua habilidade, a sua capacidade perante situações de trânsito que exigem especiais reflexos. Há pessoas que andam a 20 km/h e são um perigo e outras que andam a 120 km/h em perfeita segurança. Não seria de introduzir no ensino uma componente mais prática que ensine o que fazer quando se encontra uma auto-estrada cheia de motociclistas ou o que fazer quando o carro derrapa? Não seria de introduzir nos exames provas de destreza psicomotora?

Postas em prática estas medidas, então já se poderia pensar na tal “mão pesada” para os infractores mas com uma efectiva fiscalização. Quando viajo – e faço, em média, cerca de 2 000 km por mês – farto-me de ver verdadeiros assassinos, a fazer barbaridades, que só não provocam acidentes por mero acaso, ou porque os outros conduzem melhor do que eles; polícia? Anda por aí a passar multas de estacionamento aos infelizes que precisam de trabalhar. De vez em quando lá montam um radar – sempre no mesmo sítio – para a fácil caça à multa. Fiscalização eficaz daquelas situações que causam perigo, nem vê-la.


Como é bom de ver, com este quadro, por mais leis que deitem cá para fora, não se diminui a sinistralidade nem daqui a 100 anos.

sexta-feira, maio 08, 2015

Democracia e Eclectismo

Publicado no Jornal a 11/08/2000

A presidência portugue­sa da União Europeia foi dominada pela situação da Áustria. Ainda recentemen­te, no encontro ocorrido em Santa Maria da Feira, voltou à baila.

Para quem não souber, informa-se que houve elei­ções legislativas naquele país, que foram vencidas por um partido conserva­dor que, contudo, não ob­teve a necessária maioria. Para efeito de obtenção da maioria parlamentar foi fei­to um acordo entre aquele partido e um outro, o Parti­do da Liberdade liderado por Iörg Haider. Certa gen­te, que gosta muito de pôr rótulos, diz que esse parti­do é de “extrema-direita”; tal deve-se a certas afirma­ções feitas por Haider, a quem acusam de simpati­zante da ideologia nacional-socialista. Esquecem que certas ideias defendi­das por aquele dirigente já foram defendidas – mais ou menos com os mesmos con­tornos – por Margareth Thatcher, Jacques Chirac, ou Ronald Reagan, como seja o agravamento das molduras penais, a imposi­ção de restrições à imigra­ção e outras.

Seja como for, um dos princípios fundamentais da democracia é a liberdade de expressão, ou pelo me­nos dizem que é; ora, ao ouvir-se as alarvidades que têm por aí sido ditas, há sérias dúvidas de que assim seja: isto é, pode defender-se qualquer ideologia, des­de que seja uma ideologia com determinados contor­nos. Se isto é liberdade de expressão, eu vou ali e ve­nho já!

A verdade é que a dita democracia – esta dos poli­tiqueiros – faz lembrar Henry Ford, e o célebre “Modelo T”, que podia ser adquirido em qualquer cor desde que fosse preto.

Estamos efectivamente muito longe de uma demo­cracia ecléctica, ou seja, do­minada pelo respeito das opiniões alheias, sejam elas quais forem.

As reacções ao acordo celebrado por aqueles dois partidos, que levaram à en­trega de cargos governa­mentais a representantes do Partido da Liberdade, tem sido dominado pela histe­ria, pelo disparate, pela in­tolerável ingerência em país alheio. Sobressai a atitude da União Europeia capita­neada pelo nosso Primeiro, segundo o qual, a vontade manifestada pelo eleitora­do austríaco deve ser contrariada. E isto é dito – pasme-se! – em defesa da de­mocracia, dos princípios que enformam a tal União Europeia, princípios onde se salientam os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito pelo outro. Não há dúvida que estes politiqueiros consegui­ram a quadratura do círcu­lo!

Por outro lado, há ou­tras ideologias que não res­peitam os tais valores, mas sobre essas nada se diz, ou pior, os seus representan­tes são acolhidos com entu­siasmo provinciano e tecem-se-lhe largos elogios. Nes­ses casos, o desrespeito da tão badalada democracia não tem importância. Di­zendo de outra maneira, há bons e maus desrespeitos dos propagandeados valores, se for um desrespeito de direita é mau, se for de esquerda é bom.

E a verdade é que, para além das tais afirmações, mais ou menos polémicas, Haider nada tem que se lhe aponte: ainda não teve qualquer comportamento violador de direitos alheios e mesmo as suas opiniões têm caminhado no sentido de uma maior moderação, o que levaria qualquer pes­soa sensata a dar-lhe pelo menos o benefício da dúvi­da, a deixá-lo agir para ver se faz asneiras ou não. Como é natural, a Áus­tria está a ficar um bocado farta de tanta ideia pre­concebida e já começou a dizer que assim não pode ser: veja-se o que aconte­ceu quando foi necessário o consenso de todos os países membros.

O que seria preciso ana­lisar com profundidade se­riam as situações críticas de profunda crise social, do “regabofe” a que se che­gou, do “vale tudo”; nin­guém se lembra do descon­tentamento que este estado de coisas gera nas pessoas e que faz com que elas procurem quem defenda os va­lores nos quais assenta tra­dicionalmente a sociedade. Isto é que era preciso estu­dar a fundo mas, como não interessa aos responsáveis pela “rebaldaria”, envere­da-se pela caça às bruxas, pelo exorcismo primário e ignorante, pela estupidez generalizada que se vê nos nossos governantes e se pro­cura cultivar nos povos, à custa da intoxicação televisiva, do envenenamento mental, porque a cultura é uma coisa “chata” que não tem piada.


Em jeito de desabafo, até os mais moderados estão fartos disto e já suspiram por autoridade que não deve confundir-se com autoritarismo.

Dvra Praxis Sed Praxis

Publicado no Jornal a 25/02/2000

Oito anos da já longínqua década de oitenta – mais uns meses e poderia dizer-se “no milénio passado”… – foram gastos pelo Autor que esta faz a concluir um curso de cinco anos. Para além de uma patológica preguicite, outras solicitações falavam mais alto; só quem não passou pelos bancos da Universidade pode sentir dificuldade em compreender tais solicitações. Uma delas foi exactamente a praxe académica; para que melhor se possam compreender algumas coisas, será conveniente fazer uma breve resenha histórica.

Ali pelos princípios dos anos 70, chegou a Portugal o vírus do Maio de 68; em consequência de algumas crises politiqueiras decidiu a Academia Coimbrã suspender todas as manifestações da praxe – ou seja, para os leigos, deixou de se usar capa e batina, deixou de se fazer a Queima das Fitas. Naturalmente, isto não agradou aos que por lá passaram e aí viveram a sua juventude, sendo do conhecimento geral quão grande é a saudade daqueles tempos. Após 1974, já não teria muita razão de ser o carácter de protesto político daquela suspensão e começou a pensar-se em restaurar a praxe, julgando que tal não mereceria grande contestação: ledo engano!

Foi no Porto, em 1998, que se tentou um tímido ensaio de Queima das Fitas, era eu “bicho” (aluno finalista de liceu); foi um acto corajoso porquanto certas forças políticas, identificadas com tudo o que vai para a esquerda do Partido Socialista, disseram cobras e lagartos: chamaram-nos retrógrados, reaccionários e outras coisas muito menos elegantes que nos ofendiam e às nossas progenitoras. Com o que eles não contavam era com a reacção popular: o acolhimento entusiástico foi o impulso que faltava para que o regresso fosse irreversível.

Aluno de uma novel Universidade particular, foi minha tarefa difundir entre os colegas a praxe que já conhecia e promover a adesão organizada daqueles, tarefa levada a cabo com notável prejuízo da finalidade primordial de um estudante – que é estudar…

Acontece que aqueles simpáticos personagens são mestres na arte da subversão: se não podes vencê-los junta-te a eles para ir minando; paulatinamente, vão-se introduzindo “novidades”, pequenos exageros que – segundo a teoria do plano inclinado – conduzem a outros maiores. Acontece que os exageros merecem censura e a aprovação generalizada rápida e facilmente se transforma em reprovação. Para os inimigos da praxe, é novamente tempo de voltar à carga com o NÃO rotundo à praxe, a que se vem assistindo em alguns estabelecimentos de ensino.

Para quem se dedicou a divulgar e difundir a verdadeira praxe – aquela que não segrega mas congrega, que não ofende mas diverte, que não aliena mas disciplina – é triste ver a que estado chegaram as coisas, o abastardamento generalizado de “praxes” feitas à medida de cada um, a obscenidade grotesca em vez da tradicional irreverência, a embriaguez até à inconsciência como princípio, meio e fim.

A quem aproveitará tal estado de coisas? Sem dúvida aos adeptos do “cinzentismo”, aos que apostam na massificação mediocrizante, no nivelamento por baixo, na anti-cultura, como meio de chegar a outros mais inconfessáveis fins: a amoralidade é mais perigosa do que a imoralidade porque torna tudo relativo e é mais fácil conquistar quem não defende convicções sólidas. O trabalho de sapa é mais apto a produzir resultados do que a contestação aberta e o que se pretende é criar autómatos, sem vontade própria, que alegremente se deixem levar como carneiros para um matadouro, servilmente obedecendo a seus amos, os dirigentes supremos, líderes carismáticos, que deles se servem como material descartável, sem qualquer respeito pela pessoa humana, cada um com as suas características próprias, naquela diversidade que desperta o interesse em vez de provocar a náusea e fazer aumentar a taxa de suicídio, tão encoberta pelos “camaradas”.


Dizerem mal da praxe não a desabona: desabona-os a eles.