Desculpe, conhece a Bósnia?
Publicado
no Jornal a 23/02/1996
Deve
ser reduzido o número de pessoas que nunca ouviu falar na Bósnia; os meios de
comunicação social todos os dias falam nela. Nos últimos dias, a discussão
andou à volta do envio de tropas portuguesas integradas nas missões da ONU e da
NATO. Pelo que nos foi dado a perceber, as opiniões estavam muito divididas,
não havendo um consenso generalizado acerca de saber se os portugueses deviam
ou não participar nas referidas missões.
No
que respeita à nossa qualidade de membros da NATO, uma vez que essa organização
decidiu intervir – decisão que pode ser posta em causa – é dever de Portugal
apoiá-la, embora tenha havido quem argumentasse que Portugal só estaria
obrigado a participar caso houvesse perigo para algum dos outros países
membros.
Do
ponto de vista humanitário, pode dizer-se que estamos de acordo: qualquer
situação de conflito, particularmente quando revestida de aspectos de violência
como aqueles que temos visto através da TV, interessa a todo o mundo: em sã
consciência, não há ser humano digno desse nome que possa dizer, não é comigo, não me interessa.
Para
além disto, pouco se poderá dizer que nos envolva – como Portugueses – nesse
conflito. É preciso que se diga que Portugal pouco tem a ver com o resto da
Europa e muito menos com os países de Leste.
A
situação da Bósnia resulta do desmembramento da Jugoslávia; durante longos anos
a mão de ferro do marechal Tito
manteve unida uma manta de retalhos onde se adivinhavam sentimentos antagónicos
de nacionalidade e independência. Com a queda do Bloco de Leste, a crise
estalou.
Desde
o início dos conflitos a ONU tem intervindo, no seu papel de mediação,
procurando a obtenção de um consenso pacificador. Quem tenha alguns
conhecimentos de Direito Internacional sabe quão ineficaz ele é, pela falta de
possibilidade de impor sanções aos infractores; trata-se de um Direito
consensual, resultante da vontade das partes intervenientes, que não emana de
um órgão supranacional e não obriga à submissão generalizada, não podendo,
portanto, ser imposto a quem não quiser aceitá-lo.
Quem
– como o autor – teve a honra de ser aluno do Prof. Silva Cunha, ouviu frequentemente afirmar a pouca utilidade
da Organização das Nações Unidas – como aquele Professor dizia, com a sua
aversão às abreviaturas, ó nu, é o
vocativo de alguém que vai sem roupa.
Devido
à tal falta de resultados, os Estados Unidos têm chamado a si o papel de
polícia internacional, muitas vezes sem que houvesse quem lhes encomendasse o
sermão e a verdade é que só “metem o nariz” quando o negócio lhes interessa; de
resto podem matar-se à vontade que eles ficam mudos e quedos – tudo bons
rapazes.
Se
disserem que nós, portugueses, não podemos fazer como a avestruz, estamos de
acordo; ninguém deve repetir o gesto de Pilatos: mas não é menos verdadeiro que
a caridade começa por nós próprios e há situações gritantes que estão bem mais
próximas de nós.
Nascidos
de costas voltadas para o vizinho, só nos restou virar para o outro lado, onde
encontrámos o Atlântico; a Ínclita Geração bem compreende esta vocação ao ser
génese da Pátria que deu novos mundos ao Mundo. Há 500 anos descobrimos a nossa
identidade, há 20 anos destruímo-la. Há muito quem se recuse a enfrentar tal
realidade; ninguém desconhece que os acontecimentos de Abril de 1974 ficaram a
dever-se à questão ultramarina; devido à obstinação de alguns – na sua maioria
militares – voltámos as costas à nossa vocação, por motivos que ainda hoje não
se conhecem bem. Alguém desconhece que a missão das Forças Armadas é defender a
Pátria? Alguém desconhece o enfeudamento dos movimentos “independentistas” à
ideologia comunista? Somos dos que acreditam que, com mais algum tempo,
Portugal poderia ter garantido aos povos habitantes do Ultramar o verdadeiro
direito à autodeterminação, que não é sinónimo de independência.
Autodeterminação seria perguntar a esses povos (não aos movimentos políticos)
qual a sua vontade; e se essa vontade fosse permanecer Português, deveria ser
respeitada. Nos caso em que fosse desejada a independência, seria assegurada a
transição pacífica e, com as novas instituições devidamente estabilizadas
seriam procuradas formas de cooperação recíproca, algo como a criação de um
“mercado comum”, unindo-se os Países Lusófonos para, com a força da sua união,
poderem bater o pé e fazer valer a sua importância no cenário internacional.
Por outras palavras, aquilo que estamos a fazer com a União Europeia podia ser
feito com as antigas províncias ultramarinas. Parece óbvio que as vantagens
seriam maiores; na União Europeia somo indigentes, papalvos submissos a tudo o
que nos queiram impor, sem sequer perguntar se é bom ou mau. Com 500 anos de
ligação estreita, o relacionamento seria bem diferente e os acordos
proveitosos. Em vez disso estamos a assistir à implantação de outras
influências: já se fala na adesão de Moçambique à Comonwealth – e nós a vê-los
passar...
Voltando
à “vaca fria”, que é como quem diz, à intervenção militar portuguesa na Bósnia,
não seria muito mais justificável – se realmente queremos dar que fazer aos
militares – alertar e sensibilizar a NATO para uma intervenção em Timor? E, se
a NATO não quisesse fazer essa intervenção, não devíamos ir em auxílio dos
nossos compatriotas, os portugueses de Timor? (leram bem, não é engano,
portugueses de Timor); os habitantes de Timor declaram-se portugueses, querem
ser portugueses, perguntam porque os abandonámos, sem rancor, apenas com mágoa;
e nós? Que fazemos para além dos discursos de circunstância? Fingimos que não é
connosco.
Tudo
poderia ter sido evitado se não fosse a pressa atabalhoada, o voltar de costas
a tudo e a todos; ainda hoje há quem tenha o desplante de afirmar que o 25 de
Abril foi uma revolução pacífica, sem sangue. Será que o sangue derramado em
Angola não é sangue? E os massacres em Timor? E a fome em Moçambique?
Aquele
Professor de que se falou atrás, cultor da Ciência do Direito Internacional
Público, dizia, com fundamento, que a guerra é a continuação da política por
outros meios. Sabe-se que a política é a função superior do Estado. Visa
defender as traves mestras da orientação por que se vão pautar os órgãos de
governação. Sendo o Estado o topo de uma pirâmide hierarquizada, a ele incumbe
prosseguir o interesse nacional; por vezes esse interesse colide com outros
interesses e, em último caso, quando falham outra formas de resolução de
conflitos, usa-se a força. No entanto, é pacificamente aceite em países
civilizados, que o poder militar – ou seja, o uso da força – deve estar
subordinado ao Poder Político; salvo raras e honrosas excepções, a história
está cheia de génios militares quee foram péssimos políticos. Quem está
habituado a uma disciplina dificilmente se move num terreno escorregadio em que
uma jogada de bastidores é – quase sempre – mais importante do que a actuação
visível. Neste quadro, há que reconhecer que a Instituição Militar deve
subordinação ao Poder Político (civil). A ser assim, serão estranhas – em princípio
– manifestações de cariz revolucionário levadas a cabo por militares, tendo em
vista a tomada do Poder. Tal intervenção, de ruptura com o statu quo ante, poderá considerar-se legítima apenas quando a Nação
não se reflecte no Estado.
À
partida, poderá afirmar-se que a revolução de 1974 teve lugar por causa da
guerra; em rigor, não foi por causa da independência, nem por causa do regime,
mas apenas porque os militares não quiseram continuar com a sua missão de
combater. Tudo o resto foram acessórios, cujos reflexos se hão-de prolongar
pelas gerações vindouras.

